Wingless

Correntes extendem-se de meus pulsos e tornozelos, esticadas, erguem me a meio caminho entre o teto e o chão. Escuridão imunda-me os sentidos. Que chão, que teto? Ouço somente o barulho das gotas ao encontrar outras concentrações de água. O ar é úmido e parado, somente o odor de mofo é perceptível.

Mas não eternamente. Na terceira noite, talvez no quarto dia o cheiro dos lírios se faz presente. Suave tal qual os passos que se insinuam atrás de mim. Eles param repentinamente. Não há respiração, nenhuma ansiedade. Ergo a cabeça cansada, procuro a fonte de minhas esperanças.

Um toque suave se faz sentir em minha asa. Delicado mas decidido, preciso. Ele percore as penas desde a base até o centro da asa, sentindo a textura de cada pena. Outra mão se faz presente na asa oposta. Parecem buscar conforto em minhas alvas plumas.

Mas então, como que num reflexo, se movem rapidamente até a base, ainda delicadas, ainda firmes. E puxam com força, com muita força. A dor é imensa, os ossos se quebram, os nervos queimam como o fogo, a carne é rasgada como tecido enquanto minhas asas são tomadas de mim.

Jatos de sangue morno escorrem por minhas costas, caindo como grosso caldo no chão abaixo. Há chão, realmente. Mas nada mais me importa, nem o chão, ou o som das gotas, ou o odor de lírio, nem mesmo a dor atordoante que me priva os sentidos. Nada importa mais que a ausência, o vazio que reside em minhas costas.


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