Coração Ardente

Havia chegado a pouco tempo no baronato de Werli e estava sentado numa das mesas fora da taverna local, bebendo um vinho de procedência duvidosa, mas muito bom, acompanhado de meu velho companheiro Erwin.
Conversávamos sobre nossas velhas aventuras, mas eu havia me virado para a rua e admirava um castelo sombrio sobre a colina. Algo de muito estranho pairava sobre aquela fortaleza, pois sua aparência acinzentada contrastava com uma única fonte de luz que brilhava em seu interior, tão grande quanto uma fogueira acesa em um dos quartos.
– O Coração Ardente – meu amigo declarou, interrompendo meus pensamentos – A fortaleza do barão Zvonimir possui uma história bastante dramática.
– Pago por ouvir esta.
– Muito bem – completou. A fortaleza fora concluída há cerca 20 anos pelo barão Zvonimir Werli para ser uma das mais ressistentes de toda o mundo conhecido, tarefa concluída com êxito extraordinário devido ao auxílio anão. Desta forma o povo de Werli jamais temeria outra invasão do povo do norte.
Dizem as línguas mais sorrateiras que a arrogância do barão provocou ódio nas fúrias da região, por motivos que poucos desconhecem. Talvez por fome de mais corpos ou pelas alianças com os povos do norte, imagino eu. Mas o fato é que uma delas se apresentou ao barão exigindo pouso para a noite da festa de conclusão da fortaleza. Conforme a tradição, ninguém poderia recusar pouso a uma bruxa e diante dos olhos do barão ela apareceu como a mais bela das criaturas.
Durante a noite, enquanto uma festa era promovida nos grandes salões, a bruxa se recolheu ao seu quarto e, tocando o chão, conjurou um incêndio. As chamas arderam durante semanas e muitos dos servos morreram queimados. O barão herdou do incêndio cicatrizes horríveis.
As paredes não cederam, embora todos os móveis tenham sido consumidos pelas labaredas. O castelo se provou forte o suficiente para resistir ao toque ardente da maldita criatura.
Mas o mais espantoso é o fato de que as chamas no quarto em que esta hospedou-se jamais se apagaram e, ainda hoje, quando esta se aproxima demais das terras do baronato, as chamas crescem e envolvem os salões.
O barão libertou todos os seus servos de suas obrigações e habita sozinho a fortaleza, recebendo alimento diário de súditos ainda fiéis. Sua vida resumiu-se a vigiar e combater as chamas de seu tão amado forte.
Se você apertar um pouco os olhos pode ver sua silhueta contra as chamas no interior.


Deixar uma Resposta