Tempo de Mártires, parte 2

O sentinela galgou os degraus que conduziam ao patamar mais alto da vila erguida sobre as árvores. Por onde caminhava, uma vasta quantidade de cordas finas entrelaçadas sustentava as plataformas e pontes, com seus vastos pilares esculpidos na madeira ainda viva, com pequenos detalhes semelhantes a folhas e minúsculos animais que pareciam rastejar por todos os lados.
Ele caminhou decidido até o centro da plataforma, onde um elfo ruivo erguia com força um arco, demonstrando aos jovens a maneira correta de manejar a arma. Em seus cabelos havia uma pequena tiara de folhas douradas e ele usava também os braceletes da regência, feitos em couro. Nenhum dos adornos era realmente necessário, visto que todos conheciam a face de Glórien, mas por respeito à tradição ele ainda usava-os, e parecia bastante incomodado com isto.
– Milorde.
– Sim, Sigélof – respondeu Glórien, voltando-se para o sentinela – o que houve?
– Há um senhor no portão querendo falar-lhe.
– Quem?
– É um forasteiro, milorde; um humano. Ele disse que conhecia-o e pediu para anunciar-se como Aurin.
– Aurin…
As palavras de Glórin se perderam em suas lembranças, mal podia ocultar a surpresa ou a alegria enquanto caminhava ao portão, apressado. Não esperararia até que Aurin fosse até ele, de maneira alguma. Mas logo a surpesa se transformou em espanto. Diante do portão, curvado sobre sua bengala adornada, o velho homem mal conseguia caminhar.
Ergueu os olhos para o alto procurando pela fisionomia do amigo, e sob o capuz pode-se ver sua face enrugada, as sombrancelas grossas e a barba alva e comprida. Ela tinha pelo menos a metade do tamanho na última vez que Glórien o havia visto. Em seu olhar já se perdera o brilho de vivacidade e curiosidade que ostentava com tanto orgulho, agora substituído por um cinza opaco, daqueles que demonstra um profundo conhecimento, e uma exaustão proporcional. Glórien fitou o amigo por um breve momento e teve pena. Não havia calculado o quanto o tempo corria depressa para os humanos.
– Olá meu amigo – disse com esforço o ancião – faz muito tempo não?
– Muito, muito tempo Aurin. Dias que não mais voltarão.
– Mas as velhas batalhas retornaram, meu amigo, retornaram. Trago notícias de seu interesse.


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