nov 23 2003

Guerra e Paz, Terceira Parte, 3

“”sim, foi aqui nesse bosque, havia esse carvalho com o qual eu estava inteiramente de acordo. Mas onde está ele?”, perguntava-se o príncipe Andriei olhando para o lado esquerdo e sem saber, sem reconhecê-lo, admirava o carvalho que tanto procurava. O velho carvalho, inteiramente transfigurado, erguia-se como uma abóboda de verdura escura e luxuriante, quase imóvel, perdendo-se entre os raios de sol poente. Nem mais dedos retorcidos, nem cicatrizes, nem a antiga desconfiança e amargor, nada se percebia nele. Através da velha casca centenária brotavam folhinhas, diretamente sem galhos, tão verdes e brilhantes que era difícil acreditar que tivessem nascido dessa velha árvore. “Mas é o mesmo carvalho”, reconheceu o príncipe Andriei, sentindo-se invadido por um sentimento inexplicável de alegria e rejuvenescimento primaveril. Lembrou-se, repentinamente, dos momentos mais importantes de sua vida: Austerlitz, com um céu alto, o rosto de sua mulher, cheio de reprovação, Pierre sobre a balsa e a garotinha comovida com o esplendor da noite, a própria noite, tudo passou, num relance, por seu espírito.
“Não, a vida não está terminada aos trinta e um anos”, decidiu repentina e definitivamente. “Não basta que apenas eu saiba o que se passa dentro de mim, é preciso que todos saibam. Pierre, como também essa garota que queria voar ao céu. É preciso que todos me conheçam, que eu não viva só para mim, que eles não vivam tão independentes de mim, que minha vida se reflita na deles, que vivam comigo!””

– Liev Nikolaievitch Tolstoi, em Guerra e Paz

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nov 23 2003

Guerra e Paz, Terceira Parte, 1

Ficou um pouco grande, mas vale a pena a leitura…

“Na beira da estrada erguia-se um carvalho. Devia ser dez vezes mais velho que as bétulas, era dez vezes mais grosso e dez vezes mais alto. Era um carvalho enorme, com galhos que deviam ter quebrado há muito tempo e com a casca coberta de cicatrizes. Com seus braços e dedos enormes, tortos e feios, ele se erguia entre as bétulas, como um velho monstro mau e desdenhoso. Só ele não se entregava aos encantos da estação, recusando-se a ver a primavera e o sol.
“Primavera, amor e felicidade! Como é que vocês ainda não estão fartos desta estúpida e absurda mentira”, parecia dizer o carvalho. “É sempre o mesmo, tudo é falsidade! Não há primavera, nem sol, nem felicidade. Olhem para estes pinheiros sufocados e mortos, sempre iguais, olhem para mim, que ergo meus dedos quebrados e tortos, que brotam nas minhas costas, nos meus flancos. Como eles eu também permaneço no mesmo lugar; não creio nas esperanças nem nas mentiras de vocês”.

“Sim, tem razão, mil vezes razão este carvalho”, pensava o príncipe Andriei. “Que os outros, os jovens se deixeim prender nessas mentiras, mas nós dois conhecemos a vida – e nossa vida está acabada!” Por causa desse carvalho, o príncipe Andriei foi invadido por uma série de pensamentos tristes, mas agradavelmente melancólicos. Durante o resto da viagem tornou a fazer o exame de sua vida e, mais uma vez, chegou à antiga conclusão tranqüila e desencantada de que não deveria tentar mais nada. Só o que lhe restava era a vida, evitando o mal, sem atormentar ninguém e nada desejar.

– Liev Nikolaievitch Tolstoi, em Guerra e Paz

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