Prosa a Duas Penas, experiência I

by Sir Vexo Wingless (como o moribundo) e Milady Makura Heartilly (como a morte)

Todos os dias ela passa por mim, silenciosa, compenetrada, atarefada
com seu sorriso delicado e seu longo vestido negro.
Todos os dias eu a vejo passar e meu fôlego se vai, junto com ela
Senhora – grito um dia enfim – me leva com você?
Jovem tolo, pensas que é tão fácil?
A vida é um longo martírio do qual não podemos escapar dessa maneira
E quando depois de muito tempo, conseguimos sair desta nos encontramos anônimos e ocultos
Mesmo que venhas comigo, não poderás fugir de tua sina presente
Pois o ócio e a vulgaridade serão teus únicos companheiros, imutáveis e presentes
Como falcões, impassíveis aos seus gemidos de dor
Sóbrios a sua ebriedade
Até o fim de seus últimos suspiros. E quando, enfim, estejas vencido e sem forças
Aí então irei ao teu amparo!


Meus olhos se contorceram de dor diante de sua insensibilidade.
Havia ódio, rancor e indignação em sua voz doce
que me feriram tal qual o amargo veneno que me davam todos os dias pela manhã.
Por favor, bela dama – supliquei – tem misericórdia da minha enfermidade,
que tal qual um abutre, faminto por carniça,
me devora as entranhas, corrói meus ossos e me atormenta os pensamentos.
Minha juventude, é somente uma sombra apagada em meu rosto,
marcado pela peste e pela dor.
Tem piedade, guardiã das portas do paraíso
e me liberta deste cárcere de tormentos.


Tens sorte e não percebeis
Dor? Enfermidade?
És senão um fidalgo reclamando de seus bens!
Há mais no tênue cordão da vida do que possas compreender
Cada clamor teu é para mim um sussurro
Um murmúrio vão comparado ao dos condenados
Pois a Dama oposta lhe sorri continuamente
E eu não posso interferir na sua estase

A vida me sorri?
Somente se lhe divirto com minha dor.
Enquanto tu, injusta, rouba para ti a vida de homem honesto em seu caminho para casa,
e me mantém, sofrendo continuamente nas correntes da vida.
Eu te imploro, sede misericordiosa para comigo,
leva-me dos braços da mãe vida e me arremata no teu colo.
Ou então me deixas, condenado, a te amar e clamar por ti na eternidade.


Ahaha!! Es tão ingrato que meus ouvidos já não podem acreditar no que escutam!
Quem pensas que és? Um divindade, a ponto de julgar tua vida como fardo?
Merecedor puritano de minha clemência?
Cordeiro entorpecido em dor implorando sacrifício?
Não és capaz de me causar um ponto de arrependimento por te encarcerar nesta pensão!
Teus olhos me parecem transparecer apenas rogo por compaixão
Pedes misericórdia infundada, não amparo ao moribundo
Fantazias e aumentas a dor, por mais minúscula que seja, para que os outros te tenham como mártir. 

Talvez estejas certa, e eu deseje somente um pouco da tua atenção
mas se retirasses as traves que te bloqueiam a visão
perceberias que há muito mais em minha súplica do que o alívio para minha dor.
Pois estou cansado… meus pés não mais aguentam caminhar
quando a vida somente me mostra estradas de pedra nua e quente
em teus olhos eu vejo largos campos verdes e de brisa suave.
Para ti é fácil voltar os olhos para outro lado.
Teus ossos não doem, teus nervos não latejam,
não é tua carne que queima e teu coração que é esmagado…
quando tu mesma não podes experimentar o sofrimento.


Não desistes facilmente, mas já me cansei de sua ladainha…
Se anseia tanto assim entrar em meu reino, já não irei mais impedi-lo
Mais tome o risco como responsabilidade sua, pois lhe adverti um quanto antes que não merecias ir tão cedo
Irás sofrer muito mais do outro lado, já que tua condição não te permitiu total flagelo
irás realmente sentir o fogo do inferno entrar em suas entranhas até que esteja santificado o sulficiente para efim
Sentir algum júbilo
Mas…
É o que desejas, não?
Não irei mais aparta-lo de seu afã.


E assim se foi… da dor ao martírio!



Deixar uma Resposta