Lorde Negro I: Kyan

Cavalgara para casa, após meses diluídos em sangue nos campos. Ele vencera, e agora corria para o conforto dos braços daqueles que amava. Esperava brados de alegria ao aproximar-se dos portões, mas sequer uma saudação foi ouvida.
Uma estranha sensação tomou-lhe o ser. Mandou pôr abaixo o portão de madeira para descobrir o pátio da fortaleza vazio e silencioso. Caído junto as escadas do torreão, um dos frades jazia imóvel. Estava pálido e de lábios arroxeados.
Correu pelo interior da fortaleza e podia ouvir os gritos de seu exército ao descobrir um serviçal ou sentinela em semelhante situação. Adentrou seu quarto, passando sobre o corpo da governanta. Uma luz suave atravessava as cortinas, ressaltando os cachos dourados de sua esposa sobre a escrivaninha. Tocou-lhe a face, gélida.
Um gemido fez-se ouvir da cama. Correu para seu filho e tomou-o. Pode ver quando seus olhos perderam o brilho e se fecharam, em seus braços. Abraçou-o com força e urrou aos céus.
Os soldados adentraram o quarto e descobriram um lorde enlouquecido. Tentaram afastá-lo da criança, mas não conseguiram. As palavras veneno e traição chegavam distorcidas a seu ouvido. Ergueu-se e ordenou que o seguissem.
Invadiu o vilarejo pela força. Exigiu que entregassem-lhe o assassino. Degolou sete primogênitos antes que este lhe revelassem. Este havia fugido, mas ele o seguiu por semanas. As tropas aos poucos desertaram até que ao fim restaram-lhe não mais do que uma dezenas de homens. Mas acharam o traidor dentre os ciganos.
Tomaram-lhe a ferros, e mesmo amaldiçoado pelas línguas pagãs, carregou-o ao calabouço. Todo o povo fugia de seu olhar, mas ele não mais importava-se. Voltou para casa, para os braços de seu filho e esposa amados.
Por semanas ainda torturou e aproveitou-se de cada grito de dor daquele que havia sido seu algoz. Prometeu, pela alma de cada criança que tomara, que seus gritos ecoariam pela eternidade.
Seus leais cavaleiros voltaram-se contra seu senhor insano, mas ele os renegou. Desonrados e traídos, avançaram sobre ele e o prenderam. Foi enforcado sobre as muralhas do castelo e na noite seguinte ele retornou.
Névoas cinzentas tomaram o reino, e o lorde pôs novamente os pés em sua terra, e vingou-se de cada um de seus paladinos, enquanto pouco a pouco seu reino sucumbia aos Domínios do Terror. Voltou para casa, para o abraço frio de sua esposa e filho.



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