Lorde Negro III: A Rainha de Vidro

Com os olhos fixos no horizonte, Johan permanecia de pé sobre a muralha semi-destruída que limitava o pátio da fortaleza. Notou então as luzes que tremulavam na estada e voltado a seus companheiros gritou:
– Estão vindo!
Sobre o calçamento destroçado um lobo adormecido ergueu a cabeça e rosnou para o alto, mas foi logo acalmado pelas mãos calejadas de seu instrutor. Ao lado dele, o cavaleiro de túnica também levantou-se, segurando seu elmo.
Conforme os cinco cavaleiros se aproximavam, a lua descobria-se de seu manto sombrio, lançando uma luz leitosa sobre o pátio, refletindo a estátua de vidro fosco sobre o pilar central. Uma estátua em tamanho natural de uma dama pequenina, envolta num manto delicado que lhe descia aos pés, segurando contra o peito uma rosa cristalina. A estátua não era translúcida, ao contrário, fosca e esbranquiçada.
O primeiro cavaleiro a adentrar o pátio somente fora notado quando sua forma sombria atravessou os portões. Tinha um manto negro encobrindo-lhe o elmo e as costas e este parecia mover-se com vida própria. Desmontou e caminhou lentamente sobre as pedras.
Uma estranha canção iniciou-se de lugar algum, com notas agudas e confortáveis, inebriava os presentes de estranha apatia. As palavras mal podiam ser ouvidas, mas as notas preenchiam o ar como que transformando a noite em dia.
Uma lágrima cristalina brotou de um dos olhos da Dama de Vidro. E neste instante, a forma fantasmagórica do Lorde Enforcado apareceu, como que conjurada em meio as névoas. Tinha os cabelos desgrenhados, a feição era contorcida em ódio, e seus olhos estavam fixos em seu objetivo: o Cavaleiro Sombrio.
Silenciosamente caminhou até ele, com a espada erguida em ambas as mãos. O cavaleiro também desembainhara a sua e o primeiro golpe a ser ouvido foi o choque do metal. Mas a lâmina do enforcado atravessara a espada do cavaleiro sombrio, indo cravar-se em sua armadura, sobre o ombro.
Talez ele houvesse sofrido com o golpe, mas dentro de seu elmo sua face era invisível e grito nenhum fora ouvido. O que se seguiu foi um duelo silencioso de espadas que desapareciam em meio as sombras que formavam do manto do cavaleiro.
Conforme as lágrimas fluíam sobre os olhos da dama, os golpes do cavaleiro sombrio se tornavam mais certeiros, e volta e meia não trespassavam o corpo etéreo do seu oponente, que gritava blasfêmias em desafio.
Em um esforço final, estocou o cavaleiro sombrio forçando sua espada a atravessar as falhas da armadura, surgindo em suas costas. Novamente não houve expressão de dor ao cavaleiro, mas sua manopla ergueu-se e segurou com firmeza o punho do oponente. Ele tentou livrar-se, mas em vão. Ergueu com força sua própria espada e num único golpe separou definitivamente a cabeça o lorde de seu corpo, que desfazia-se nas névoas.
Vitorioso, avançou a passos lentos em direção da estátua. O canto se tornava mais forte e decidido, sua voz era satisfação e júbilo e assim que a manopla do cavaleiro tocou sua mão de vidro, a capa sombria caiu ao solo, espalhando as peças de metal por sobre as pedras do pátio.
Lágrimas verteram-se dos olhos da Rainha de Vidro, que partia-se aos poucos, liberando blocos de vidro que se desfaziam-se ao chão. Restara pouco mais do que uma forma difusa com sinais de uma beleza perdida.
E nesta noite três dos senhores sombrios foram libertos das brumas dos Domínios do Terror. A não ser que os Poderes Sombrios tivessem outros planos.


Uma Resposta para “Lorde Negro III: A Rainha de Vidro”

  • Congelado | Caindo Says:

    […] Fui enviado ao sul, para assegurar os bastiões e as passagens nas fronteiras mais longínquas. Há muito tempo candidatei-me a este serviço fui honrado com o título que o acompanha: senhor do Fiorde Branco, defensor das Escarpas do Açoite e protetor da Rainha de Vidro.

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