A Sangue Frio

Era pequenino ainda, mal podia se por de pé e estava diante de mim, com as mãozinhas estendidas e os grandes olhos fixos nos meus, esperando que eu o acolhesse.
Mas eu temia a responsabilidade, temia a perda, como acontecera antes. Agachei-me até ele e ele sorriu, ainda inocente de minhas reais intenções. Levei uma faca de seu pescoço. A proximidade da lâmina fria significava para o infante pouco mais do que uma brincadeira.
Mas assim que a lâmina perfurou a carne, com certa resistência ao romper a pele, sua expressão se modificou para dor e indignação. Empurrei-a até o cabo fundo em sua garganta e puxei para o lado, abrindo um corte largo de quase um palmo.
Vi-o deitar ao solo, o sangue escorrendo pelo corte, espalhando-se pelo chão, manchando a sola de meus sapatos. Haviam lágrimas em seus olhos, mas os meus eram impassíveis. Permaneci de pé, observando seus espasmos ao buscar por ar quando não mais podia.
Vários minutos se passaram até que seu corpo permanecesse inerte, mas seus olhos, ainda abertos me indagavam o porquê. Eu não sabia responder.
Foi a primeira, e única, vez que assassinei um amor, ainda inocente. Pretendo nunca repetí-lo, mas temo a chegada deste dia.



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