O Monolito da Honra

– uma crônica de Sir Glenn d’Leene

Escalei as escarpas rumo ao topo do pequeno planalto. Era pouco mais largo do que o forte ao qual me encontrara hospedado dias atrás. Lembrava-me do caminho entre as rochas ainda, um caminho estreito e íngreme, um caminho para poucos. E definitivamente não para os cavalos.
O topo era verdejante e vivo, agraciado por uma suave brisa que erguia as folhas de visgo e as pétalas das flores do campo. Não haviam árvores ou grandes arbustos. Tudo o que se erguia no centro do planalto era o objetivo de minha busca: o Monolito da Honra.
Tratava-se de um grande dente de pedra cinzenta que se erguia duas vezes e meia mais alto do que eu, bem no centro do planalto. Fora colocado ali há muitas eras por algum santo ou mesmo pelos pais das árvores diziam as lendas. Elas diversificavam em vários pontos, mas todas concordavam em um ponto crucial: a função do monolito.
Para homem algum o monolito apresentava-se de maneira igual, pois espelhava-se na honra e nos ideais de seu observador. Eu já o conhecia, mas precisava ter certeza de sua magia. Diziam que deveria ser o objetivo almejado de todo cavaleiro, uma rocha a erguer-se altiva para aqueles que soubessem onde procurar auxílio e inspiração.
Desembainhei a espada e rumei para o centro da formação, mas não avistei guardião algum. Somente uns pássaros pequenos que brincavam ao vento. Parecia exatamente igual ao que eu havia visto da primeira vez, anos atrás, mas em verdade não estava. Haviam meia duzia de pequenas marcas, arranhões ao seu redor e próximo ao topo uma lasca havia sido retirada. Olhei para ele com pesar, comparando-o a mesma visão de anos atrás. Haviam pequenas runas lapidadas em sua face, representando a honra, virtude, fé e outros ideiais de um cavaleiro.
Pus a mão sobre a pedra fria e fui tomado de uma rapida visão. Os campos de Leene, minha terra natal, avistados de sobre o Monte do Ente, cortados pelo correr ruidoso do riacho prateado que erguia jorros de água ao chicotear as rochas. Avistei as crianças correndo sobre os campos com espadas de madeira, saltando sobre as cercas, seguidas de perto por seus cães. Um vento repentino acordou-me de minha visão, tragando-me de volta ao presente e prolongando-se como um calafrio em minha espinha.
Eu era inocente, era puro e cheio de vigor. E agora, havia marcas em meu monolito, embora nenhuma das runas houvesse sido apagada, sequer rasurada. Por um momento senti-me orgulhoso. Tracei um dos arranhões com a ponta do meu dedo, lembrando-me da provação que provocara aquela ferida. Havia sido uma grande provação, e causou-me somente um pequeno arranhão.
Pensei em quantos cavaleiros deparavam-se com ruínas de pedra sobre o planalto, ou avistavam seus monolitos partidos e deteriorados pelo tempo. Tomado de súbita tranquilidade, deitei-me aos pés do monolito, despindo-me da armadura e largando longe a espada e escudo. Era belo ao erguer-se contra o céu azul e as nuvens que desfilavam muito acima. Era belo e vigoroso.
E eu orgulhava-me dele


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