Perdição

O sol apareceu fraco por entre as nuvens da manhã sombria, e o vento nos atingia forte. Levantamos âncora e contornamos a ilha tropical, vergados pela força das ondas. Do outro lado dos corais avistamos nosso nêmesis, com o flanco voltado para nós. Não seríamos rápidos o suficiente para uma fuga e tampouco havia munição para um combate a esta distância. Estávamos perdidos.
O capitão decidiu abordá-los e, num ímpeto suicida lançou-nos contra os corais. Os canhões eram jogados ao mar para aliviar o peso, pois encalhar seria nosso fim.
E então a primeira saraivada veio; um dos tiros nos atingiu próximo a proa e outro rasgou uma das velas. Perdíamos velocidade e toda a situação parecia desesperadora. Novamente ouvimos o clamor dos canhões e o segundo bombardeiro voou sobre nós, nos atingindo em meio ao convés. Da proa eu senti o tremor e fui jogado ao chão. Fumaça cinzenta e o cheiro de pólvora emergiam dos porões. Havia corpos atirados para a popa e alguns caíram no mar. Mas estávamos perto o suficiente para abordá-los. Se ao menos pudéssemos resistir ao terceiro ataque.
E o vento veio, junto com as ondas que nos empurraram para baixo e ergueram consideravelmente nossos asdversários. Os canhões atiraram muito acima de nós e, conforme subíamos a onda arremetemos como um aríete com a força de um titã.
O casco rachou de cima abaixo e desesperados atiramos os ganchos. Havia algo como a fúria fluindo entre a tripulação e os tiros, os sabres desembainhados e meus gritos ecoavam entre as barcaças emparelhadas.
Subi a amurada e apontei o fuzil para seu imediato, bradando um insulto que o empalideceu. Largou o chapéu inglês ao chão e correu do convés. Em maior número ocupamos a embarcação ligeira e fizemos prisioneiros, poucos em verdade, mas os fizemos.
E por mais que estes feitos me houvessem retornado aos braços e aos olhos daquela que eu almejava, mais tardes eles seriam minha condenação.
Mas naquele momento eu sorri, deleitando-me com o sangue que cobria o mar.


Deixar uma Resposta