A Volta

E, em pouco tempo a euforia da batalha esmaeceu e dissipou-se lentamente. Todos tinham agora o semblante entristecido e preocupado. Uns jogavam os corpos num monte, outros ao mar; alguns vasculhavam a nau inglesa a procura de tesouros, de pólvora ou açúcar. Quanto a mim, só pensava em voltar.
Os olhos dela estavam em minha mente, assim como os lábios que me enfeitiçaram e o corpo que me dominou por toda aquela noite. Eu ainda podia sentir seu cheiro, mesmo dentre a pólvora que pairava no ar; podia sentir o toque de seus dedos sobre o meu peito, seus dentes em meu pescoço. A ansiedade tomou conta do meu ser, inflamou em minhas veias, explodindo em meu peito.
Mas logo morreu, ou transformou-se n’algo diferente quando encontrei-a caída junto aos canhões. Seu vestido estava repleto de cinzas, ocultando a cor verde de outrora.
Ajoelhei-me a seu lado e tomei-a nos braços. Seu corpo resistiu, tragado pela gravidade. Não havia sopro ou vontade e sua face, pálida e cândida, coberta por pequenas gotas de sangue rubro. Rubro como nosso amor. Não sei o que veio primeiro, se o frio, a solidão, a descrença, a revolta ou a culpa. Somente me lembro de ter gritado, tão alto quanto pude; tão forte, tão raivoso quanto meus sentimentos me permitiam.
E o céu me respondeu com trovões, e o mar com as ondas. E eu os amaldiçoei, assim como me amaldiçoaram.



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