Sobre o Lobo Acorrentado e sua Dama no Bosque

– outro conto de Ethrü

A noite encobriu o arvoredo, transformando os troncos próximos em meros rascunhos ocultos nas sombras. Tuulikki caminha descalça sobre a relva, temendo por seus próprios passos, mas resoluta de seu destino.
Ao alcançar um pequena clareira ela detém-se, buscando no céu o prateado crescente da lua e o brilho lacrimoso das estrelas. Respira profundamente, tragando o frio do ar noturno. E então ela ouve um pequeno ruído.
Era metálico, como que uma corrente correndo sobre a relva. Ouve também um tossir solitário, gutural e aterrador que provoca-lhe arrepios. A mata sob seus pés está gelada e úmida e isto contribuí para a tensão que corre-lhe o corpo, eriçando-lhe os pequenos pêlos sobre os braços nus.
Tuulikki busca em volta pelo autor do ruído e distingue, no lado mais longínquo da clareira, sob a sombra de uma grande árvore, dois pontos vermelhos a fitá-la.
Durante a noite os lobos tinham olhos vermelhos, diziam os antigos, e ela sabia ser verdade; pois no norte haviam muitos lobos, e eles se reuniam a volta dos casebres durante o anoitecer.
Ela quis correr, mas seus olhos não puderam desviar-se. Por algum tempo permaneceu parada, até que a sombra latiu. Uma, duas, três vezes. Aproximou-se timidamente a passos curtos enquanto a corrente corria de lado a outro, acompanhando o movimento do lobo.
E era mesmo um lobo, um grande lobo de pêlo cinzento, grosso e comprido. A bocarra aberta arfava, e ele parecia rugir, embora de modo sufocado. Em seu pescoço uma grande argola de ferro engatada a qual estava uma corrente, mais grossa do que o polegar da moça.
O pescoço do monstro parecia machucado pela argola e ele sentia-se incomodado por isto. Ao seu redor, um odor fétido, assim como restos de ossos e grossas camadas de terra pisoteada.
Estendeu a mão para ele e tocou os pêlos em sua fronte. Rapidamente ele se moveu e ela recuou a mão um pouco. Mas não houve dor ou sangue, somente o toque úmido do focinho do animal e seu hálito quente na noite fria. Encarou-a com olhos duvidosos, embora isto não amenizasse o terror que inspirava.
A garota enlaçou o focinho do monstro em seus braços e, sentando sobre suas próprias pernas, deitou a cabeça dele sobre o colo. Ao esbarrar contra a argola enferrujada, avistou nela pequeninas letras que formavam o nome “Ulfask”. Só o notou porque a argola gemeu e trincou a seu primeiro toque.
Ao segundo toque a argola se partiu de todo, caindo sobre a relva e colo de Tuulikki. A fera que outrora atormentara três reinos estava novamente a solta…


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