jan 24 2005

Tragado

E eram as ondas a golpeá-lo cada vez mais alto, primeiro na cintura, e então o ventre, por fim o peito. Estava gelada e ele podia sentir os ossos estalando. Os pulmões arfavam com dificuldade, buscando um sopro de vida, de calor que o coração já não fornecia. A água alcançou-lhe o pescoço e os nervos tensos e rijos pareciam corta-lhe a carne.
Não podia gritar. Algo quente e amargo subiu-lhe a garganta, mas escapou para o exterior numa pequena nuvem de vapor pálido. O silêncio tomou conta enquanto ele avançava. Pretendia chegar a outra margem, caminhando. Mas a maré subia e subia, e ele não mais sentia seu corpo, só um movimento ritmíco e dormente.
Aos poucos as luzes do céu estrelado se apagavam e suas pernas pesadas eram sugadas para baixo, para um vazio submarino solitário, sombrio e gélido. Ergueu os olhos para ver a luz leitosa e borrada da lua apagar-se contra a superfície e então uma sombra negra o alcançou. Uma sombra vinda de cima…

› Continue lendo