mar 30 2005

Costurando Penas

Ajoelhado, em meio as cinzas, sentia o sangue escorrendo, quente e molhado costas abaixo. Sozinho no escuro abraçava as próprias pernas… mas não chorava. Não havia lágrimas para a desgraça de um caído.
Ele ouviu os passos, pouco antes que ela chegasse, apressada. Era pequenina e delicada e parecia atarefada; trazia nos braços uma infinidade de penas. Havia muitas ao redor, e outras tantas espalhadas mundo a fora, mas ela havia colhido a maioria delas; e as costurou, uma a uma, nas costas do caído.
E o sangue fluiu novamente através das veias, e ele esticou as asas, já não tão brancas, mas cobertas por fuligem e cinzas, algumas até mesmo enegrecidas e queimadas. Mas eram asas novamente; asas que ele pensou jamais recuperar.
E a costureira recebeu, em troca, um sorriso desajeitado de alguém já não acostumado a alegria; um sorriso simples e verdadeiro…

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