Crônicas Noturnas

Frio; ela ainda sentia o frio. Era estranho, e inesperado, mesmo porque não havia pele para tremer, ou nervos para sentir, nem mesmo carne ou ossos ela possuía. Somente um bloco rígido de vidro opaco que ostentava uma aura alva fantasmagórica; especialmente durante as noites de lua clara.
A rainha de vidro permanecia de pé no centro do jardim, cercada por cravos vermelhos e brancos. Na base rochosa crescia lentamente uma trepadeira de folhas pequeninas e muito verdes. O inverno já vinha avançando e o jardim ainda não havia perdido suas cores, como que uma corte, que não se dissipa antes da despedida de sua rainha. Esta, por nunca haver temido o frio, não possuía motivos para abandonar seu esquife cristalizado.
Mas hoje a rainha sentiu o frio; um frio estranho que partia de dentro, crescendo pela coluna invisível e arrepiando-lhe a nuca. Um frio muito mais palpável do que uma mera sensação; muito mais aterrador do que um simples pressentimento


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