Nota de Falecimento
Tirou o paletó do armário e o provou; ele ainda o caía muito bem. Escovou-o e tornou a vestí-lo, por sobre a camisa cinza e a gravata de cor grafite, que igualava-se a cor do terno. Gostava desta combinação, cinza sobre cinza, tom sobre tom; e era vaidoso nisto.
Rumou para o cemitério que ironicamente ficava próximo a sua casa. Não usava óculos escuros como a maioria, pois já não tinha lágrimas para chorar, e todos pareciam ignorar sua aparente tranqüilidade.
No cinema os dias de funerais eram sempre chuvosos, mas hoje o dia havia amanhecido somente cinzento, com o sol despontando entre as nuvens mais ao leste. Não era um dia especial e o mundo não havia parado para lamentar a perda; a vida seguia lá embaixo, como deveria ser.
Chegou ao túmulo a tempo de vê-los descendo o caixão, lenta e pesadamente até o fundo da cova. Olhou para dentro e, através da pequena janela do esquife pode ver sua própria face uma última vez
- por Jefferson ‘FallenAngel’ Seide Molléri