ago
15
2005
– Lembre-se disto: Nós perpétuos, somos servos dos vivos, não seus mestres. Nós existimos porque eles sabem no fundo de seus corações que existimos.
A Casa de Bonecas – Sandman, Neil Gaiman
- Você acha que eu pareço mais o Destino ou o Sonho?
- Hum… deixa eu ver… o Sonho. Você com este teu jeito de estar preocupado com tudo o que acontece, e incerto da tua própria capacidade.
- Eu acho que você parece bastante o Destino; ao menos antigamente você tinha consciência de tudo o que acontecia, mas parecia preso a isto.
No final das contas eu me descubro eu mesmo, incompleto e imperfeito; tão capaz de magoar e tão alheio ao mundo ao meu redor
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ago
12
2005
Levará sua vida, tudo o que você é e tudo o que lhe é caro e não deixará nada a não ser neblina e névoa Levará sua alegria. E, um dia, você vai acordar e seu coração e sua alma terão partido.
Um casco você será, um fiapo você será. Não mais do que um sonho ao despertar ou a lembrança de algo esquecido.
- Coraline, Neil Gaiman
A flecha ainda dói, mas só o faz porque há algo em meu peito. Logo, ele cessará suas batidas irritantes e vazio não haverá mais dor. O inverno chegará e não provocará mais ferimentos nas marcas antigas. Haverá paz enfim. Ao menos assim eu gostaria que fosse
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ago
11
2005
Estico os braços ao redor do meu tórax, buscando inutilmente tapar o buraco em meu peito. Porque ele dói mais enquanto o vento me atinge. Acho que ele sempre esteve aí, mas nunca tão frágil… a flecha que rasga e oprime o miocárdio, aquele pequeno pedaço farpado que ainda ficou dentro mim.
Busco um abraço que não existe no frio da noite. O vento sul invade meu quarto pela janela, junto ao ruído e ao cheiro da chuva; penetra no meu peito e enregela. Durmo com os olhos repletos de lágrimas, orando para que haja força e determinação suficientes para o futuro.
E, quando acordo… a única coisa que mudou foi o cessar da chuva
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ago
10
2005
As portas para o reino das fadas fecharam-se em algum lugar sobre o barco, levando-o para longe, para as brumas cinzentas de uma ilha onde sonhos e fantasias são reais. Eu o assisti, a cada momento, desaparecendo-o contra o horizonte enquanto a chuva caía. Bendita seja a chuva, que me ajuda a disfarçar as lágrimas
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ago
9
2005
Impossível lê-lo sem deixar-se influenciar:
“Os meus sentidos se confundem, faz oito dias que não consigo mais raciocinar, os meus olhos estão cheios de lágrimas. Não me sinto bem em parte alguma e sinto-me bem em toda parte. Não desejo nada, não peço nada. Seria melhor partir.”
- Os Sofrimentos do jovem Werther, de Goethe
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ago
8
2005
…É como se eu fosse um espírito que regressasse ao seu castelo, construído quando ainda era um próspero príncipe e ornamentado com todos os requintes de magnificência, encontrando-o destruído pelo fogo…
- Os Sofrimentos do jovem Werther, de Goethe
Mais engraçado é o fato de ter finalizado, durante a manhã, pouco antes de chegar aqui e ver os blogs dos meus amigos, o trecho do dia 3 de novembro
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ago
5
2005
Abro a mochila e as lembranças me escapam ligeiras, correndo pelo pátio, por entre a decoração formada pelos cacos de minha própria alma. Grandes farpas de vidro e cristal barato espalhados por toda a extensão de meu domínio,… de meu ser.
Eu corro atrás delas, tentando inutilmente evitar que se machuquem contra as lâminas afiadas que se projetam do solo e das paredes. Consigo, a muito custo, salvar a maioria delas, jogando-me contra estas farpas numa tentativa suicída de preservar minhas memórias saudáveis. Algumas voltam arranhadas, mas nenhuma delas realmente ferida.
Eu, ao contrário, abraço com fervor minha própria destruição; alegre de certa forma, por preservar todas as lembranças tão amadas
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ago
4
2005
As muralhas ainda são compostas pelas mesmas pedras e encimada pelas mesmas grades de ferro repletas de lanças e farpas. Tudo para afastar visitas indesejadas. Eu não uso a ponte, ao invés, contorno o fosso e o atravesso em determinado ponto, com água na altura do peito. Do outro lado só a parede.
É o caminho mais difícil, mas é minha porta de entrada mais segura e eu subo, me apoiando nas frestas entre as rochas, machucando os dedos que mal sentem, tamanho o frio a meu redor.
Há um pequeno rompimento na cerca metálica; grande o suficiente para um homem, e é por aí que eu entro. Talvez a entrada não seja larga o suficiente, pois ouço o som de tecido rasgando e só depois percebo a mancha vermelha em meu tórax. Voltar para casa sempre exigiu muito esforço, e este nunca foi sem marcas.
Mas eu consigo trazer a mochila em segurança para dentro, e isto me deixa tranqüilo. Sentado sobre o caminho de ronda eu abraço forte o pacote de lembranças, ainda quentinhas e pulsantes; e novamente o frio me invade
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ago
3
2005
Abri os olhos e descobri uma manhã nebulosa e cinzenta. As névoas cobriam tudo ao meu redor e eu mal pude ver o pequeno casebre sobre o monte. Tudo era solitário e cinzento. Ela havia ido embora… a felicidade me deixara.
Por quanto tempo estive dormindo? Por quanto tempo mantive meus olhos cerrados?
Não sabia mais para onde ir. Somente um caminho me era ainda conhecido, o meu caminho para casa. Tomei minhas coisas – todas as lembranças ainda vivas – numa mochila, pois nunca precisei de mais de uma, e desci o monte afivelando a velha bainha a cintura.
O caminho para casa é tão cinzento quanto as brumas que me cobriram mas… diferente destas, eu o conheço muito bem. Já posso avistar no horizonte as muralhas e torreões da minha fortaleza em ruínas. Uma casa, um lugar para onde voltar
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ago
2
2005
Abriu o baú, deixando cair de cima dele a capa e o elmo. Dentro, sua velha espada ainda partida repousava junto as manoplas. Faltava algo, pensou, e retirando do anelar direito um pequenino anel de prata, depositou-o junto a estas coisas; lacrando novamente a grande arca de madeira.
E tudo se tornou cinzento novamente
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