mar
31
2006
Desenterrei as memórias com pá de coveiro,
violei seu esquife, seu túmulo,
e em meio terno sujo e ossos soltos
retirei minhas lembranças mais queridas,
talvez as mais doloridas,
aquelas pequenas saudades corroídas
por nossos pecados, nossos medos,
os momentos há muito sepultados
sem ao menos terem sido vividos
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mar
30
2006
Porque sempre lembro dela ao ouvir esta música:
“She had black hair like ravens crawling over her shoulder
All the way down
She had a smile that swerved, she had a smile that curve
She had a smile that served all over the road”
- All Wrong, Morphine
Ela sempre me encanta, me deixa sem ação;
me faz a vida passar pelos olhos,
como um filme onde ela, coadjuvante,
nunca esteve realmente distante
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mar
28
2006
Noventa milhas; três dias,
os músculos rígidos já não suportam a marcha,
o corpo faminto entorpece com doses de endorfina,
os olhos pesam, pestanejam a mente não mais resiste.
Posso ouvir teu canto, suave e distante,
que me chega aos ouvidos como o correr da fonte,
com a refrescância da suave brisa noturna,
o repouso do orvalho da manhã invernal.
Ouço teu cântico, tua voz chamando meu nome,
um sussurro delicado e sutil convidando ao repouso,
ao doce e merecido repouso dos teus braços,
dama dos lábios doces e abraço gélido.
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mar
27
2006
Fazia um logo tempo, anos talvez… e, ao nos encontrarmos, chá, tequila e muitas verdades; algumas daquelas que doem, outras daquelas que confortam. Eu sei o que eu quero… teu sorriso e a certeza de estar servindo-a como merece, rainha
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mar
22
2006
O gosto que amarga em minha boca,
é gosto de ferrugem e de cinza,
O veneno que corre em minhas veia
é só álcool e morfina,
O frio que me percorre o corpo
não é inverno; solidão,
A farpa que me transgride a alma,
carvalho do meu próprio coração
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mar
21
2006
Veio a chuva,
anuncia o outono e a queda,
trouxe um pouco de frio,
um pouco das lágrimas que não choro,
um estranho conforto para quem espera,
já sem a certeza da chegada
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mar
17
2006
A primeira nota veio solitária como o primeiro floco de neve, ecoando pelo grande salão colonial, reverberando nos cristais do lustre. A segunda acompanhou-se num leve dedilhar de meios-tons enquanto a evolução prosseguia. Adentrou seu peito como o inverno lentamente cobrindo de branco os campos.
A inspiração chegava sem avisar, transformava o homem num gênio e o gênio em mera ferramenta de sua obra. Era a inspiração criando uma obra-prima, um sentimento que jamais seria composto novamente, notas que jamais se repetiriam na mente de um poeta.
E uma pequena sombra estendeu-se sobre o piano seguida de um estalar metálico. Soube então que sua música estava perdida, para sempre em seu coração, para jamais ser conhecida pelo mundo. Mas ela ainda estava ali, latejando e pulsando em seu peito; e a deixava sair por seus dedos, ganhar altura e fazer do grande salão o seu lar.
E então, de modo inesperado ela parou; numa última tecla. Havia terminado, compôs sua obra máxima, ergueu os olhos e a nomeou: Snow.
O disparo da pistola soou mais alto e mais forte do que as palavras. Enquanto cartucho vazio e compositor caiam sobre o piano, a menina de cabelos castanhos escondia a arma num moletom branco e deixava o salão, a passos lentos.
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mar
16
2006
Meu prato repleto de cinzas, meu copo de pesares
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mar
14
2006
Torno aos campos desolados, aqueles onde outrora inúmeros embates foram travados. Os campos de minhas memórias. As piras se extinguiram há muito, mas ainda restam as cinzas e os ossos descobertos pelo vento traiçoeiro, este mesmo vento que me açoita o rosto com areia e pó, vestígios de meus algozes, herança de meus companheiros.
Uma espada quebrada deixei nalgum lugar, junto as piras talvez. Fora levada, saqueada, como tudo mais que pertencera aos caídos. Seus túmulos profanados são cuspidos do ventre da terra, exibindo carcaças repletas de histórias que nunca mais serão contadas.
Ai de mim, que sobrevivi a queda; e agora volto aos campos, como filho pródigo que retorna ao lar. Ai de mim, por ter sofrido nestes campos a derrota e a morte, e ter-me negado a descansar.
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