Inspiração
A primeira nota veio solitária como o primeiro floco de neve, ecoando pelo grande salão colonial, reverberando nos cristais do lustre. A segunda acompanhou-se num leve dedilhar de meios-tons enquanto a evolução prosseguia. Adentrou seu peito como o inverno lentamente cobrindo de branco os campos.
A inspiração chegava sem avisar, transformava o homem num gênio e o gênio em mera ferramenta de sua obra. Era a inspiração criando uma obra-prima, um sentimento que jamais seria composto novamente, notas que jamais se repetiriam na mente de um poeta.
E uma pequena sombra estendeu-se sobre o piano seguida de um estalar metálico. Soube então que sua música estava perdida, para sempre em seu coração, para jamais ser conhecida pelo mundo. Mas ela ainda estava ali, latejando e pulsando em seu peito; e a deixava sair por seus dedos, ganhar altura e fazer do grande salão o seu lar.
E então, de modo inesperado ela parou; numa última tecla. Havia terminado, compôs sua obra máxima, ergueu os olhos e a nomeou: Snow.
O disparo da pistola soou mais alto e mais forte do que as palavras. Enquanto cartucho vazio e compositor caiam sobre o piano, a menina de cabelos castanhos escondia a arma num moletom branco e deixava o salão, a passos lentos.