mai 29 2006

Stand Alone

Ergueu-se lentamente, apoiado num braço só; tentara firmar o outro mas descobria-o quebrado, torcido a altura do cotovelo. A dor o incomodava, mas não vinha de seu braço. Conseguiu pôr-se de pé sobre as duas pernas que não paravam de tremer. Sua visão retornava aos poucos, e a cabeça tonteava. Por um momento pensou em vomitar enquanto o mundo girava e as formas borradas tomavam seu lugar. Piscou e levou a mão aos olhos; um deles era uma pasta úmida e líquida que mal podia distinguir entre sangue e o próprio olho. O crânio havia afundado. Fechou o olho ferido para que as formas se tornassem mais nítidas.
Tudo era cinza a sua volta; uma vasta planície cinzenta na qual jaziam espalhados, aqui e ali penas recém queimadas. Penas, como que de anjos, que acumulavam-se a sua volta, onde rachaduras tornavam o solo ainda mais sinistro. Havia sangue em suas pernas e um osso fazia seu caminho para fora da coxa direita e no chão mais penas. Ergueu a face para gritar, mas o grito sufocou-se em sua garganta. Os dentes haviam trincado, cravado fundo no céu da boca e não permitiam que se abrisse.
Forçou até que, com um estalo surdo a mandíbula desprendeu-se, atirando longe uns poucos dentes ainda inteiros. O grito não mais sufocado saiu, claro e gutural contra o céu matinal, donde os primeiros raios de sol rompiam as nuvens

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mai 28 2006

Mais um dia

- das crônicas de Ethrü
Abri lentamente a porta esperando pelo pior, mas o salão não poderia apresentar maior tranqüilidade; havia trepadeiras e ramos por todos os campos, esgueirando-se, escalando a rocha fria do cômodo. A luz incidia de uma abertura no topo pouco acima do trono e resplandecia através do seu sorriso cúmplice. Não era silencioso, ao contrário, pássaros e esquilos corriam por todo lugar e pequenos insetos voavam junto aos raios solares exibindo seus tons metálicos.
Fugi de seu olhar, pois contavam as lendas que ela poderia hipnotizá-lo, sufocá-lo ou mesmo fazer emergir, do íntimo da alma os piores pesadelos. Não pedi licença, não fui gentil, simplesmente disse ao aproximar-me de seus pés:
- Por que eu?
E como ela não respondia, ergui meus olhos. E os dela eram belíssimos, de um azul profundo demonstravam compaixão e misericórdia, que pouco condiziam com sua juventude. Seus cabelos castanhos caíam em cascatas suaves sobre o vestido branco bordado com pequeninas flores azuis de ramos verdes. E se sorriso me inspirava desejo e calor. Mas me contive, e perguntei:
- O que quer de mim?
- Ora – começou ela – eu quero seu bem, meu anjo. Quero que você viva, que você lute mais um pouco. Quero que você tenha uma razão para ficar um pouco mais.
Somente então eu reparei suas mãos, cobertas de cinza e fuligem do qual brotavam pequenas e delicadas unhas pintadas num esmalte vermelho-sangue.
- Se você veio em busca de paz – completou – você não encontrará aqui. Procure num outro lugar. Pois sou a Vida; e só posso te oferecer compaixão e cinzas

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mai 26 2006

Por Amor

- Mas por que você sempre usa preto?
- É a cor do meu amor.
- A cor do amor é vermelho.
- Não quando você ama a Morte

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mai 25 2006

Convite

Nunca aceite um convite meu e jamais, jamais espere um sim ou um não como resposta. Pois eu vivi tempo demais com as fadas

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mai 25 2006

Festa

Minha irmã se casou neste sábado, e teve festa em família, e foi tudo ótimo, para todos. Mas eu não estava bem… e creio que ainda não estou.
É claro que tudo isto vai passar (porque sempre passa), mas não agora. Tem muito ácido, veneno e fel que eu ainda preciso absorver. Quero falar, contar as pessoas o que me irrita, o que me aflige, o que me decepciona mas… não é hora.

A Lane teve uma festa bonita, e espero que ela seja realmente muito feliz. Porque ela merece

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mai 18 2006

Minhas pequenas lembranças

Busco um lugar para deixar,
para guardar minhas lembranças
quando eu me for.

Busco alguém que as adote,
que as acolha como se fossem desejadas
se não mais puder zelar por elas.

Busco um amparo para que elas,
da minha queda não sejam as penas
espalhadas por todo a volta

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mai 16 2006

Dois Invernos Somente

- tradução própria para uma música do My Dying Bride

De que serve a esperança as portas da morte?
E o que pensar da vida quando os olhos se fecharem?
Porque deveria manter as lembranças?
Ainda as teremos na hora de nossa morte.
A dor, creio, irá embora sozinha. Para sempre.
Mas não. Não a minha. Não agora. A vida mal começou.

Clame meu nome, mas não morrerei por ninguém.
Pois meu corpo ainda luta e a vida brota dele.
Cruze meu caminho e sofrerá como homem nenhum antes.
Porque tenho fome pelos desafios de Deus.

Por dois invernos somente nós vivemos.
Meus Deu. O que você se tornou? Meu senhor.

Poderíamos ter mudado o mundo, enquanto esteve comigo.
Agora.
Em seus braços. Em meus braços, meu amor.
Jesus chorou; e desde então nenhum homem viveu em paz.
Mas as lágrimas. Elas caem por você. Somente por você.

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mai 14 2006

Mereço morrer…

Não porque a morte é punição, porque corrige nossos erros e nos pune por nossas falhas; pois a morte não pune, mas liberta.
Mas eu mereço morrer, porque como todos os outros seres deste mundo eu vivi e, se um dia vivi, mereço a morte. Mereço-a por ter feito a merecer, por ter lutado pela vida e cumprido meu dever para com ela. Eu a amo, e espero que desta vez ela me tome em seus braços como seu consorte. Agora mereço a morte, como o dia merece a noite e a noite se apraz das estrelas

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mai 9 2006

N’Outro Dia

- Dream Theater

Ainda ouço a canção,
Live another day
A melodia da vida,
Climb a little higher
Me pede para continuar,
Find another reason to stay
Me pede para lutar.
Ashes in your hands
As cicatrizes ainda doem,
Mercy in your eyes
Meu horizonte é difuso,
If you’re searching for a silent sky…
E meus olhos só vislumbram
You won’t find it here
Um caminho árduo, uma saída,
Look another way
Para a dor, para a mágoa,
You won’t find it here
Um caminho de penas e asas
So die another day

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mai 7 2006

Súplica

Acorrentado em teu calabouço, meu pequeno e sombrio lar, minha escolha, meu destino. Em teu palácio, em teu peito sou livre para vagar, aos corredores, arrastando minhas correntes, meu pesar. Mas não poderei te deixar jamais, prometido aos grilhões do teu desejo, de tua vontade.
Anseio a luz do luar que me escapa por entre as frestas, tanto quanto anseio teu toque, teu gosto; mas meus sentidos me impedem de me aproximar, me impedem de te tocar, por honra e por respeito. Teus lábios me parecem gélidos, teu toque me cheira a veneno mas eu desejo o que me foi prometido.
Desejo a vida, o sangue correndo em minhas veias uma última vez, espalhando teu veneno e inebriando-me os sentidos, senhora da morte.

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