Mais um dia

– das crônicas de Ethrü
Abri lentamente a porta esperando pelo pior, mas o salão não poderia apresentar maior tranqüilidade; havia trepadeiras e ramos por todos os campos, esgueirando-se, escalando a rocha fria do cômodo. A luz incidia de uma abertura no topo pouco acima do trono e resplandecia através do seu sorriso cúmplice. Não era silencioso, ao contrário, pássaros e esquilos corriam por todo lugar e pequenos insetos voavam junto aos raios solares exibindo seus tons metálicos.
Fugi de seu olhar, pois contavam as lendas que ela poderia hipnotizá-lo, sufocá-lo ou mesmo fazer emergir, do íntimo da alma os piores pesadelos. Não pedi licença, não fui gentil, simplesmente disse ao aproximar-me de seus pés:
– Por que eu?
E como ela não respondia, ergui meus olhos. E os dela eram belíssimos, de um azul profundo demonstravam compaixão e misericórdia, que pouco condiziam com sua juventude. Seus cabelos castanhos caíam em cascatas suaves sobre o vestido branco bordado com pequeninas flores azuis de ramos verdes. E se sorriso me inspirava desejo e calor. Mas me contive, e perguntei:
– O que quer de mim?
– Ora – começou ela – eu quero seu bem, meu anjo. Quero que você viva, que você lute mais um pouco. Quero que você tenha uma razão para ficar um pouco mais.
Somente então eu reparei suas mãos, cobertas de cinza e fuligem do qual brotavam pequenas e delicadas unhas pintadas num esmalte vermelho-sangue.
– Se você veio em busca de paz – completou – você não encontrará aqui. Procure num outro lugar. Pois sou a Vida; e só posso te oferecer compaixão e cinzas



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