Stand Alone
Ergueu-se lentamente, apoiado num braço só; tentara firmar o outro mas descobria-o quebrado, torcido a altura do cotovelo. A dor o incomodava, mas não vinha de seu braço. Conseguiu pôr-se de pé sobre as duas pernas que não paravam de tremer. Sua visão retornava aos poucos, e a cabeça tonteava. Por um momento pensou em vomitar enquanto o mundo girava e as formas borradas tomavam seu lugar. Piscou e levou a mão aos olhos; um deles era uma pasta úmida e líquida que mal podia distinguir entre sangue e o próprio olho. O crânio havia afundado. Fechou o olho ferido para que as formas se tornassem mais nítidas.
Tudo era cinza a sua volta; uma vasta planície cinzenta na qual jaziam espalhados, aqui e ali penas recém queimadas. Penas, como que de anjos, que acumulavam-se a sua volta, onde rachaduras tornavam o solo ainda mais sinistro. Havia sangue em suas pernas e um osso fazia seu caminho para fora da coxa direita e no chão mais penas. Ergueu a face para gritar, mas o grito sufocou-se em sua garganta. Os dentes haviam trincado, cravado fundo no céu da boca e não permitiam que se abrisse.
Forçou até que, com um estalo surdo a mandíbula desprendeu-se, atirando longe uns poucos dentes ainda inteiros. O grito não mais sufocado saiu, claro e gutural contra o céu matinal, donde os primeiros raios de sol rompiam as nuvens