Tendo o Ódio para o Jantar

Ele chega sem avisar, como sempre; entra pela porta como se a casa fosse sua e se senta a mesa bem a minha frente, enquanto a mãe espalha os últimos talheres sobre a toalha. Seu sorriso se abre aos poucos, exibindo o aparelho metálico. Eu não sorrio de volta, mas ele não parece se importar.
Conforme a mãe se retira, ele tira sua própria faca e pinça um grande pedaço de carne ou batata sobre a mesa. Mas não parece atentar a minha presença. Eu então faço o meu prato, começo a comer e só então ele puxa conversa. Fala coisas sobre o dia-a-dia, política, futebol, clima ou religião. Tenta puxar papo, mas eu desconverso.
Ele espeta outro pedaço e come vagarosamente enquanto insiste na conversa. ‘É meu trabalho, você sabe’ – diz assim que abocanha a última mordida. Volto-me para ele e descubro seus olhos vermelhos, incandescentes, brilhando e refletindo no espelhado da faca; a própria lâmina parece se aquecer com a sua vontade, se tornando amarelada, o calor pulsando em ondas pelo ar.
Me faço impassível frente a ameaça, mas isto novamente não adianta. Rapidamente gira a faca entre os dedos e crava-a em minha mão, prendendo-a contra o madeirame da mesa. A dor percorre nervos e músculos, me força a fechar a mão sobre a lâmina enquanto ele, gargalhando, sai pela porta sem dizer adeus



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