Coletor de Lembranças

Andar sozinho sempre o fez parecer mais alto, mais do que já era. O coletor vestia um sobretudo comprido e cinzento, uma camisa social bastante amarrotada e um chapéu de abas largas, por baixo do qual escondia-se uma feição rígida e respeitosa. Algumas vezes atravessava a rua sem motivo ou parecia conversar sozinho, pois conhecia as fadas, e isto transparecia em seu olhar, que observava muito além do nosso mundo, das nossas muralhas e outdoors.
Mas isto era tudo que podíamos perceber. Ele era um caçador, desbravou o mundo em busca de lembranças perdidas, de memórias negadas que, depois de recuperadas bailavam e saltavam aos céus pés, pequenas nuvens luminosas que mais pareciam ovelhas felpudas conduzidas por seu pastor. Uma bengala faria dele um perfeito gentleman e pareceria um condutor ainda mais fiel.
Mas as lembranças infantes são emotivas, gargalhavam e choravam por pouco e o coletor protegia as medrosas sob seu sobretudo e repreendia as mais exaltadas. Algumas delas são macias e doces, outras são geladas e arranham com garras e esporas e ele guardava-as todas consigo. São suas lembranças, pequenos pedaços de uma vida que lhe foram retirados, despedaçados.
O coletor já foi uma pessoa diferente, embora não saiba como. Ele espera, um dia, poder saber



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