Pro resto da vida
“conseguiu inimizade pro resto da vida”
Todos os dias tomo o barco do Styx entre os olhares curiosos, desconfiados; o barqueiro pouco se importa desde que eu lhe entregue uma moeda de prata, o que não é muito fácil de encontrar. Esgueiro-me por dentre os leitos no início da noite, busco os recém falecidos e, sob suas línguas furto-lhes as moedas. A cada noite um furto, a cada noite uma moeda.
Corro para a barca então, receoso de perder a travessia, mas o barqueiro ainda está lá, aguardando. Empurra lentamente o leme contra as águas caudalosas e cinzentas do Styx, que furioso, jorra espuma e gelo por sobre o convés. Mas pouco importa, aos mortos porque já não sentem, a mim porque me basta o anseio pela margem oposta.
Passo a noite junto dos meus ancestrais, dos caríssimos que outrora se foram mas sobretudo, junto a mim mesmo. Descubro-me como eles, desprovido dos sentimentos e anseios pela vida, repleto da razão e consciência do sono e da morte.
Mas a manhã chega, e o barqueiro faz o caminho de volta. Ficam todos, exceto eu, que preciso voltar sozinho aos braços sufocantes da vida, do outro lado do rio Styx
Então vou continuar existindo por essas pessoas, que essa estória aqui continue sofrendo =) Obrigada por não me ignorar.
Deixo os portões, subo as colinas e volto aos campos que semeamos, os campos que deixamos. As heras cresceram sem controle, tomaram o pomar e a pequena murada e, ainda assim os frutos nasceram, grandes e vistosos. Busco no casebre uma foice pequena e um cesto e me ponho a caminhar por entre as árvores, colhendo o quanto posso. Em pouco tempo a cesta está repleta de grandes frutos de pálida cor amarela e um gosto suavemente azedo. Tomo todos comigo e faço meu caminho de volta para casa, levando todas as amarguras que semeamos
Confiro meus e-mails enquanto tomo uma xícara de café na mesa da cozinha. Não há ninguém mais acordado em casa e eu sinto falta do frio das manhãs de inverno; daquele inverno que não volta mais, daquele que ocultava flores brancas sob sobretudos negros
- Crônicas de Ethrü
Há três dias percorríamos os campos do norte em busca dos sinais do lobo, quando finalmente o encurralamos numa clareira. Parecia cansado ou tinha sono, Jarl não sabia ao certo, mas foi o primeiro a vê-lo, a grande massa de pêlos cinzentos caída por sobre a relva. Nos aproximamos cautelosos, mas não o suficiente, pois o monstro nos farejou. Ergueu-se de um salto exibindo suas grandes presas.
A astúcia em seus olhos denunciou que nos esperava. Ele confiava demais em sua fúria. Ele rugia ameaçadoramente e tentava nos amedrontar. Confiei minhas costas a Jarl e saquei a espada a tempo de tê-lo saltando sobre mim. O golpe foi rápido, ligeiro demais para que meu amigo disparasse uma flecha. A bocarra do monstro já envolvia meu braço esquerdo enquanto eu inutilmente tentava estoca-lhe a espada no pescoço. Arranhei-o algumas vezes, mas isto só parecia incitá-lo ainda mais.
E então, num movimento súbito ergui-o sobre mim e foi então que a flecha o acertou. Jarl disparou precisamente em seu peito ferindo-lhe no coração. Mas a criatura não caiu, ao contrário, ergueu-se novamente arfante e voltando-se para o lado contrário disparou por entre as árvores.
Ergui-me para acompanhá-lo, mas o elfo deteu-me pelo braço.
- Sete anos, Glenn; por sete anos aquela seta irá torturá-lo em seu peito. E ao final do sétimo ano ele morrerá, se não houver um toque suave o suficiente para arrancá-la dali.
Eu realmente odiava profecias ou maldições, mas especialmente as élficas, pois vinham carregada de verdade além do próprio entendimento. Então eu esperaria, por sete anos, pela morte ou pela liberdade
Daniela já nasceu longe, tão longe quanto uma estrela na abóbada acima, e tão brilhante quanto qualquer uma destas. Dani me cingiu com asas de um anjo e me amparou no colo suave de uma irmã mais velha. Eu sinto sua falta cada dia mais, pois dos pedaços distantes de meu coração ela é aquele o qual mais raramente posso tocar. Seu nome significa boas lembranças junto as árvores élficas, saudades eternas, e um clamor inexplicável pelo oeste. Daniela se esforça para ser uma ótima artista e uma critica ainda melhor, mas na minha opinião, não há cargo que ela seja mais bem-sucedida do que como amiga