A travessia do Styx

Todos os dias tomo o barco do Styx entre os olhares curiosos, desconfiados; o barqueiro pouco se importa desde que eu lhe entregue uma moeda de prata, o que não é muito fácil de encontrar. Esgueiro-me por dentre os leitos no início da noite, busco os recém falecidos e, sob suas línguas furto-lhes as moedas. A cada noite um furto, a cada noite uma moeda.
Corro para a barca então, receoso de perder a travessia, mas o barqueiro ainda está lá, aguardando. Empurra lentamente o leme contra as águas caudalosas e cinzentas do Styx, que furioso, jorra espuma e gelo por sobre o convés. Mas pouco importa, aos mortos porque já não sentem, a mim porque me basta o anseio pela margem oposta.
Passo a noite junto dos meus ancestrais, dos caríssimos que outrora se foram mas sobretudo, junto a mim mesmo. Descubro-me como eles, desprovido dos sentimentos e anseios pela vida, repleto da razão e consciência do sono e da morte.
Mas a manhã chega, e o barqueiro faz o caminho de volta. Ficam todos, exceto eu, que preciso voltar sozinho aos braços sufocantes da vida, do outro lado do rio Styx



Deixar uma Resposta