Fragmentos

Pedaços do meu ser que eu ainda guardo, como aquele pequenino anel esquecido na arca. Fazem parte do meu ser, ou do que restou dele, pois estou morto. O Jefferson a quem conheceram morreu há muito tempo atrás e eu tento inutilmente me convencer de que não. Alguns dias parece-me que tudo permanece igual, e noutros tudo parece ter mudado, exceto um sentimento malogrado em meu peito; e então me sinto fino como uma folha de papel, como tecido frágil do miocárdio, que a qualquer momento pode romper-se, e então os fragmentos, pedaços do meu eu morto espalhar-se-iam pelo chão e aí ficariam.

Pagaria pelos meus atos, mas creio que estaria em paz. Parece um tanto banal e clichê e, para ser sincero eu concordo. Estou enumerando os mesmos sintomas apresentados pela maioria dos “mórbidos” ou “trevosos”, dos quais não me distingo nem mesmo a futilidade. Penso em procurar ajuda profissional, pois parece que toda a ajuda pessoal que eu recebi não parece ter surtido efeito e hoje apenas incomodo meus amigos com minhas buscas e questões vãs por um pedaço de Jefferson que eu nem sei onde está.

Ás vezes me sinto confortável por saber que estão felizes, mas entristeço sozinho. Dizia que por causa da apatia, por não ter pelo que lutar mas, creio hoje que me sinto triste simplesmente quando todos os outros estão felizes. Sinto-me só. Caminho sozinho pelas praças e passeios, vou ao teatro ou ao cinema só e, se bebo, o faço na companhia de meus amargores somente; e é de Dream Theater e Los Hermanos que estes se alimentam. Disse que eu estava melhor antes, quando parecia viver; mas prefere-me morto pois posso dedicar-me. Dedicar-me, se fujo a presença? Afasto-me de mim mesmo, temendo meus atos, meus pensamentos e sonhos.

Sonho periodicamente com coisas que nunca aconteceram; noite passada devorava ratos, e os achava apetitosos, como um corvo ou outra ave noturna. Como Ofélia ou sua irmã talvez, de pêlo malhado e pezinhos cinzentos tingidos do sangue dos roedores. Devorava ratos crus, mesmo sabendo que sujos e doentes me traria mal-estar. Tal qual meu veneno que escorre-me das presas e farpas, carapaça e ferrão.

Armadura e malha que teço para me proteger do mundo, para segurar todos os fragmentos em meu interior. Me sinto, me faço forte ao perceber os calos em minhas mãos, esquecendo-me da dor ao valorizar honra e coragem. Me sinto mais forte perto dos fortes, como se houvesse realmente mudado. Mas ainda sinto as marcas de flechas, nos dedos e em meu peito. Em verdade, pouco mudou, porque ainda estou em pedaços, como há dez anos quando pequeno me recriminaria por meus atos. Mal consigo expressar o significado e muitas vezes me sinto constrangido por participar de sua vida.

Mas dezena de andares acima ela está e eu, que mal posso comprar o meu carro sequer posso ver-lhe a silhueta refletida em minha moto. Moto que não é minha, como todas as lembranças que citei; fazem parte de um passado onde havia vida num corpo que agora jaz morto, em meio a tantos papéis, sonetos e palavras de pouco sentido, as quais compõe o que me é remanescente.
Quando eu me for, quem as recolherá e as agrupará em algo coerente? Será possível? Confio esta tarefa a um guardião da qual futuro incerto confio à amizade, toda esta a qual tenho negligenciado e rejeitado. Pois não sou eu que a mereço, mas um Jefferson que morreu…


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