Os Velhos Boêmios

Eu costumava freqüentar um pub enquanto boêmio. Coisa de poeta – dizia. Era um ambiente soturno e úmido sob um teto esburacado onde jogávamos cartas e atirávamos dardos. E bebíamos, é claro, como bebíamos.

Eu sentava sempre na mesa do lado do Fernando e do Edgar e, por maiores que fossem suas diferenças, sempre tinham um assunto para discutir em inglês; e George, contrariado, bebia vinho numa taça mórbida de crânio humano. Éramos um grupo distinto, você deve saber.

John e o irlandês nos contavam coisas sobre as fadas, e os irmãos Jacob e William quase sempre discordavam. Havia um novato sempre de olho, um americano louco que dizia ver deuses e profetas. Augusto jogava dados com um tal de Destino, que era companhia constante do americano.

E tantos outros passavam a noite naquelas mesas, rabiscando fantasias em guardanapos de papel ou delirando com o fundo do copo de uma strong ale ou, no meu caso, uma lager.

Eu dividia minha mesa com outros desconhecidos que como eu compartilhavam os petiscos (e os delírios) dos veteranos. Bebíamos da mesma fonte. Coisas de poeta.


Estive doente, pneumonia disseram, talvez tuberculose. Mas melhorei, ou algo próximo disto. O pub também esteve fechado, o proprietário ausente ao que parece.

E quando voltei nada era mais como antigamente. As mesas pequenas receberam cadeiras plásticas e coloridas, com apoios arredondados para não machucar as cabeçinhas dos infantes. Os quadros de dardos foram substituídos por pôsteres publicitários com splashes e números grandes.

A cerveja foi substituída por shakes de chocolate e baunilha, cobertos por um malte não-escocês e nos tentaram empurrar pequenos complementos alimentares enclausurados em caixinhas de isopor.

O que mais me faz falta são os velhos boêmios. A maioria se foi, para outros pubs neste lado ou além, mas alguns poucos permanecem, tentando se adequar a nova geração, de cabelos cobertos por brilhantina, tênis e calças listradas.

E eu, acho que perdi meu lugar na mesa ao lado do Fernando e do Edgar.


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