Através da Névoa II

Sua forma materializava-se na prancha. Parecia uma peça de xadrez, onde que o vestido comprido e rodado emoldurava-lhe o corpo esguio e a pequena tiara criava um pequeno detalhe entre os seus cabelos. Estes estavam amarrados às costas, numa pequena trança protegida da neblina matinal.

Desceu a tábua com cuidado redobrado, sozinha. Somente ao descer ergueu a mão enluvada para que o jovem pajem a segurasse. E assim não permaneceu por muito. Ajeitou o longo vestido enquanto a luz dourada irradiava sobre as pequenas pérolas e rendas de seus bordados.

E então sorriu, com os olhos e os lábios. Sorriu para além da névoa e eu senti aquele frio que brota das entranhas, paralisa os brônquios e nos permite as reações mais inesperadas. Acossei-me contra a parede. O sorriso não seria para mim. Seria?

Ouvi-lhe os sapatos transcorrendo os ladrilhos portuários sem interrupção. Aproximei-me para olhar e ela passou por mim, um pouco mais baixa, um tanto mais altiva. Mas não olhou-me os olhos, ao contrário, manteve os olhos fixos e os lábios comprimidos e seguiu…


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