Monstro Liberto

– Crônicas de Ethrü

Cacei-o por anos a fio; rastreei suas marcas e segui sua trilha de devastação até que um dia, sem menor aviso desapareceu. Não haviam mais pegadas pelos campos ou trilhas de sangue entre as árvores. Desapareceram os temores noturnos e as lendas deixaram de ser contadas a sussurros.

Soube então que outro caçador cruzara os campos de caça; empunhava a lança dos nórdicos e cavalgava um garanhão de pelagem branca; seus cabelos cinzentos eram emoldurados por asas de gaivotas. Uma mulher, uma valquíria. Levara o lobo dali e consigo minha liberdade presa ao peito do monstro.

Rumei para sua fortaleza e durante a noite tomei de assalto. Despindo-me da armadura e escudo saltei por sobre a muralha para o pátio interno. De imediato reconheci o ronco trovejante da criatura. Pé sobre pé rumei para ela com espada em punho movido pela ganância.

O prêmio deveria ser meu – pensei – e amaldiçoei a valquíria por tê-o tomado. Dividiria a caça com Jarl que depositara a maldição em seu peito, mas reclamaria para mim sua morte e faria de suas presas meu espólio.

Mas o monstro despertou com facilidade, como da vez anterior. A mesma astúcia e maleficência se denunciavam no rubor de seu olhar. Ergueu-se rapidamente mas foi detido por um pedaço de fita preso em seu pescoço. Ele testou o grilhão como deveria ter feito tantas vezes antes. Havia marcas de mordida na seda, mas nada fora capaz de destruí-la.

O braço esquerdo reclamou na presença da criatura e tive que consolar a espada em minha mão direita. Subi a lâmina sobre o tecido, rompendo-lhe as fibras tal qual rompia o destino traçado pelas Nornas. Por um momento pude ouvir as montanhas ruindo tão alto quanto o passo de um gato. Fazia parte de uma magia antiga, de deuses e anões e temi.

Temia pela fera agora liberta, que rapidamente saltou por sobre o portão e mais uma vez estava solta pelos campos. Distribuiria, sem distinção, fúria e selvageria sobre a terra, fazendo novos órfãos e viúvas. Mas apesar do meu pecado, teria de volta a esperança de liberdade, ou de morte.

– com base no Monstro Agrilhoado


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