abr 16 2011

Sentenciados ao Inverno

O inverno se aproximava e dentro da velha casa as lembranças me irritavam durante todo o dia. Tomei-as todas de uma vez e atirei-as porta afora, arremessando uma garrafa de vinho para espantar as que tentavam voltar. Houve uma algazarra lá fora enquanto descobriam a neve recém caída.

Voltei a gasta poltrona junto ao fogo e adormeci por boa parte da tarde. Somente quando a noite chegou e os murmúrios cessaram que minha curiosidade despertou. Fui a janela afim de olhar o pátio e encontrei as pequeninas a sofrer com o frio.

Os sentimentos mais nobres haviam se aninhado em rebanhos e buscavam pelo ponto mais quente, onde a luz do sol ainda atravessava as muralhas altas. Mas os rancores permaneciam a beira de seu caminho; haviam derrubado um dos nobres e banqueteavam-se em seu pescoço e colo. Vísceras e sangue cobriam a neve, suas garras e lábios.

As lembranças mais frágeis e furtivas acomodaram-se nos cantos escuros, e sofriam o frio da minha solidão, batendo queixo em medo ou por congelamento. Os bravos, reduzidos a poucos, duelavam entre si numa rinha improvisada e seus pés já haviam cavado a neve até tornar-se lamacenta.

As lembranças mais preciosas eram tomadas por resgate e trocadas por proteção, calor ou alimento, enquanto a sátira caçoava incessantemente do infortúnio destas. O orgulho permanecia no alto de uma ameia, eventualmente assaltado pela geada que agora caía com vigor.

Em meio a todo o caos, pequenos olhos escuros encontraram os meus. Uma lembrança pequenina e sutil passava despercebida pelas outras, intocada e solitária. Parecia que todos os outros ignoravam inconscientemente sua presença, mas ela percebia a todos e a tudo. Olhava diretamente para mim com digna atenção, como que aguardando meu veredito.

Fechei as cortinas e deixei-as ao relento. O inverno chegara ao meu reino e não seriam todas as lembranças que sobreviveriam a ele…