Congelado, parte 2

Eu já não podia sentir meus dedos. Tato, paladar e olfato foram tragados pelo frio e misteriosamente meus olhos e ouvidos foram parcialmente poupados. O açoitar do vento tornou-se uma canção constante e até onde minha vista alcança somente em um cinza difuso o mundo se manifestava.

Havia sacrificado tudo isso por ela e mesmo minha alma jazia agora encarcerada sob um cristal de gelo. Correria para ela se pudesse, para o calor de seus braços se vontade ainda houvesse. Mas minhas forças há muito haviam sido tragadas pelos fiordes, seu torpor e seus açoites.

– Diga-lhe que congelei – as palavras ainda ressoavam em minha mente quando meu fiel Leifr veio a mim. Prostrou-se cautelosamente a meia jarda das ameias, observando o continente sul encoberto pelas névoas.

– A rainha não suportará, meu senhor – manifestou-se pesaroso – mas não há o que se possa fazer, nada sob a rocha-de-gelo. Estendeu a mão para meu ombro, mas ela deteu-se fosca e difusa centímetros adiante, na superfície cristalina que me mantinha. – Um dia talvez, se o inverno partir, terá sua própria voz para respondê-la.


– continuidade ao Congelado, e atendendo a pedidos da Amanda e da Patrícia

 


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