Familiar

Empoleirava-se no alto de uma trave de cadafalso, e  já fazia dias desde minha última refeição. Contra o cinzento acima, sua penugem negra pouco contrastava e por muito pouco não deixo de notá-lo. O exílio já obrigava-me a fazer concessões, e para o estômago faminto parece haver muito pouca diferença entre um frango e um corvo.

Tendo ponderado sobre isto, cravo minha lança ao chão e encordo o arco do modo mais silencioso que posso. A madeira escorrega entre meus dedos suados, mas aos poucos dou cabo da tarefa. Separo uma única flecha reta de seta larga, sabendo que não terei uma segunda chance e, de modo mecânico, encaixo-a na corda.

O movimento seguinte dá-se em uma fração de segundo; erguer o arco e soltar a flecha torna-se um movimento só com a prática. Apesar disto, minha pontaria não parece melhor hoje do que a primeira vez que disparei. A flecha voa reta e acerta a asa esquerda do pássaro que, desequilibrado vai ao chão.

Minha habilidade para a escaramuça no entanto, aprimorou-se dia-a-dia e eu não perco o momentum. Alço a haste da lança com a mão direita e corro de encontro ao corvo. Desajeitadamente ele tenta erguer-se do solo, mas pernas e asas parecem fragilizadas pelo impacto.

Surpreendo-o pisando sobre a asa ferida. Ouço as penas partindo sob o solado da minha bota e sorrio, antecipando o gosto de sua carne sobre as brasas. Encaro seu olhar negro e recriminador como se pela primeira vez, embora certo da familiaridade que nos une.

As mãos erguem a haste sobre minha cabeça e eu desejo uma morte breve e indolor ao meu algoz. A lança desce uma vez mais,…

E então sinto o impacto no ombro me derrubando ao chão. A visão me falha, o pulso acelera e o suor escorre gélido, pelo meu peito e pescoço. Existe algo mais escorrendo, quente e abundante ombro abaixo, tornando o chão rubro. A dor é lacerante no sentido real da palavra, percebo minha carne fender-e e separar-se, afastando o ombro de seu lugar de origem.

Ergo os olhos em busca de meu agressor e então meu braço é novamente ferido, torcido e esmagado contra o solo por uma força muito superior a minha própria. Sinto os ossos estalando e partindo; a dor me chega mais quente e rubra que o sangue e ao canto do olho vislumbro um aguçado brilho metálico.

Encaro meu oponente uma vez mais, ciente do vínculo que nos aproxima. E antevejo o que virá a seguir…


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