Encanto

There’s nothing like a broken childhood
O pai chegava religiosamente ás 3:12 da manhã, considerando a caminhada trôpega desde o bar na esquina que acabara de fechar. Acordava a esposa aos berros quando ela mesma não o esperava de pé. Batia nela. Batia muito.
E depois subia a seu quarto, os passos errantes ressoando pelo assoalho enquanto galgava os degraus. Entrava no quarto puxando da calça o longo cinto de couro. Os gritos se faziam ouvir na madrugada.

There’s nothing like a broken home
Certo dia ela fugiu. Não aguentava mais as surras, pensou, sem considerar o envelope com o carimbo da clínica sobre a mesa da cozinha. Soube quando encontrou as roupas recolhidasdo varal sobre o sofá da sala. Não a culpou.
E então eram somente os dois, as brigas mais frequentes, embora ele agora revidasse. Muitas vezes o pai já não voltava para casa, ou quando voltava, passava as madrugadas em frente a TV, chorando baixinho.

There’s nothing like a tale from your hood
Destacou-se no colégio, ganhou uma bolsa e foi para a universidade. Tornou-se uma lenda na vizinhança e só aparecia nas vezes que o pai tinha crises. Contratou uma babá e esqueceu-se. Mais do que ele merecia, na verdade.
Conheceu-a numa conferência. Ela era ainda estudante e tinha nos olhos aquela admiração ostentosa da juventude. Os cabelos cheiravam a chocolate. Deu-lhe duas filhas e casou-se no dia de São Miguel.

There’s nothing like a record of restriction orders
Levou as meninas embora. Grazi tinha uma mancha negra no braço e ela o culpava. A mais velha já o odiava há anos e a puberdade tornava tudo pior. Sua atenção era voltada agora para celulares e garotos. O pai perdera o posto de herói quando enjoou de chocolate e começou a beber.
Recebeu a intimação em casa, das mãos da oficial de justiça que o recriminava com o olhar. Era de sua antiga vizinhança, ele supunha, mas não queria perguntar. Guardou-a na mesma gaveta onde haviam os papéis não assinados do divórcio, o contrato da babá e o envelope com o exame sua mãe. Pensou em emoldurar.


A idéia veio de uma série de influências externas: seriados (Lie to Me, Big Bang, CSI), filmes (Finding Forrester, entre outros), contos (Neil Gaiman especialmente) e mesmo algumas lembranças pessoais. Atraídas juntas recentemente pela música Spitfall, do Pain of Salvation.


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