Desgraça
Ela cita Shakespeare como quem lê,
correntes de internet e não Sonetos…

Volto a te procurar após meu longo exílio. Bato a porta mas ninguém atende. Sei que está aí, sei que se esconde. Eu a vi enquanto me seguia naquela madrugada. Semana passada deixei um recado avisando que voltaria. Mas você não está, ou finge que não. Eu sei.
Vejo os panfletos turísticos acumulados na entrada. Anunciam tua breve partida. Seria uma fuga, ou uma oportunidade que surgiu? Você não me deixaria desta forma, eu sei. Não posso culpar-te. Tentei obedecer todas as regras, mas estou aqui a sua porta novamente.
As correspondências chegam toda quarta-feira. Reconheço nisso tua mensagem. Voltarei bem cedo na quarta, e quando você abrir a porta estarei aqui. Combinado? E veremos novamente sentido em tudo isso. Eu sei!
Disse que me amava, no passado, presente e vindouro. Encontrei as palavras rascunhadas numa pequena nota, abandonada enquanto a perdia dentro de mim.
Aquele pedaço de papel transcendeu os limites do próprio tempo e imortalizou um sentimento encrustado em sua superfície.
Ainda lembro de como suas garras escaparam ao beiral e mergulhou na escuridão. Somente o silêncio e a marca dos arranhões, que demoraram a desaparecer. Sob a crosta, no entanto, outras lembranças pelas quais não posso sequer agradecer-te, pois não a encontro novamente.
Já tão inserida em meu âmago que desfaz todas as tentativas em percebê-la, separá-la de minha psiquê. Acredito que enlouqueceria se te encontrasse novamente, e perderia-me contigo. Permaneço são portanto, na busca que perdura além da eternidade.
Meu espírito carece de objetividade,
vê o mundo a partir de si mesmo…
Egoísmo, a que escola pertences?