maio 28 2012

Agora eu sei…

Das sapatilhas azuis e brancas um ritmo inconstante, reduzindo em velocidade conforme aproximava-se. Parecia temer a reação dele ao vê-la, mas por sob as lentes grossas não era possível discernir seu olhar. Parou a frente dele e pousou sobre o gramado um ramo de lírios brancos.

Em seu âmago ela almejava o reencontro, mas afligia-lhe as palavras que treinara durante toda a semana. Começou dizendo que sentia a falta dele, mas a voz falhou-lhe no meio da sentença. Pigarreou e tentou novamente, com mais força na entonação. Ele continuava impassível a isso. Era esperado.

Então ela lembrou-lhe o passado, quando o sacrifício dele passou despercebido por si. Algo dentro dele remexeu-se. Ela sentia muito por não ter percebido suas intenções. O algo desenrolou-se e rugiu, ameaçador. A coragem subia-lhe como um vinho forte, e as palavras começaram a jorrar em goles grandes.

Agora eu sei o que você sentiu – ela disse – quando o mesmo aconteceu comigo. O punho dele se ergueu contra o granito. Queria que você pudesse me perdoar, e me aceitar. Esfolava os punhos, rugia com todas as forças de seus pulmões. Queria ter feito isso por você enquanto era tempo.

Mas o tempo já não era. Ele queria erguer o esquife, agarrá-la com força e torce-lhe o pescoço até que a vida se esvaísse dela. Queria tomar seus lábios e sugar seu calor. E tudo isto porque o tempo se foi, e ninguém o notou enquanto ele vivia.


maio 17 2012

Sinal e Ruído 3


Nos meus mundos as pessoas morriam.
Eu achava isso honesto,
Achava que estava sendo honesto.
Achava que estava dizendo a verdade.
Achava que…
Eles eram atores.
E fingiam estar mortos.

– Sinal e Ruído, Neil Gaiman e Dave McKean


maio 15 2012

Eridani

Na minha imagem preferida de você,
curvas  negras e reflexos castanhos,
uma alma sedutoramente rubra,
uma mente altiva e melancólica.

Mas o destino derruba as cortinas
e lança uma luz sobre sua tez,
transformando o sonho em névoa
e trazendo a outrora distante realidade.

Evaporaram-se as águas que vertiam dos teus olhos
e banhando minhas mãos e pulsos,
me algemavam ao sonhar.

De escravo me vejo liberto, nu e sincero
o vermelho agora me escorre do peito
e o azul inunda minh’alma.

– inspirado em I’m Sorry, Evergrey


maio 11 2012

Devils’ Due

I love you, Jim. You’re my son, and I always will love you. I used to think I could also say, ‘I’ll always be proud of you.’ But I can’t honestly say that anymore.

You’re walking down a dark path, Jim . A path I never could have forseen for you, and one I simply cannot respect. We love you, but we can’t take your money. That’s blood money, Son, and that’s not how you were raised.

Do you remember what I used to tell you, Son? A man is what he chooses to be. It’s not how he’s born, or how he’s raised, that makes the man. It’s his choices. Right now, you’re choosing to walk down a dark path I can’t condone. But a man can turn his life around with a single thought, a single decision. You can always choose to be something new. Never forget that.

– Trace Raynor’s final message recorded to his son.

 


maio 10 2012

Sinal e Ruído 2

A mortalidade é algo difícil de encarar.

“Aquilo que não nos mata nos fortalece.” Pode até ser. Mas o que nos mata nos mata, e isso é dureza…

– Sinal e Ruído, Neil Gaiman e Dave McKean


maio 10 2012

Sinal e Ruído 1

– O senhor diz que cria os filmes na sua cabeça antes de filmá-los.

– Sim.

– Já teve alguma surpresa agradável ao ver o filme terminado?

– Na verdade… não. Talvez por saber o quanto eles são diferentes do que eu tinha em mente. É lá que estão os verdadeiros filmes. Depois eu os coloco no papel e, por fim, tenho que filmá-los… para libertá-los de sua prisão.


Dave McKean é um gênio! Essa afirmação é irrelevante aqui, mas não poderia iniciar este pensamento sem isto. Porque ele soube expor em tão poucas linhas o que também penso a respeito dos meus escritos.

Eu crio personagens e histórias, que pouco a pouco adquirem vida, arbítrio e vontade. Deixam de ser pedaços de meu consciente (ou subconsciente) e se tornam sencientes por si só. Então eu escrevo, pois preciso libertá-los do cárcere minha mente.

Por sorte não os filmo. Acredito que não suportaria.
Nisso eu me pareço mais com o Alan Moore.


maio 9 2012

Meus olhos, teus olhos

E quando estiveres perto, arrancar-te-ei os olhos e colocá-los-ei no lugar dos meus; E arrancarei meus olhos para colocá-los no lugar dos teus…

Apesar dos aspectos psicológicos envolvidos, imaginei essa frase de modo meio literal. Com certeza não é o que o autor – Jacob Levy Moreno – queria com isso, mas me senti confortável em entregar, talvez numa bandeja, minhas lentes a outro.

Relembram aspectos do passado, alguém que prevê sua queda no silêncio e na cegueira e uma disposição minha, sempre presente, no sacrificar-me a este alguém.