Misericórdia

– Diga-me onde dói – a voz surgiu em meio a escuridão – assim eu posso alcançar a dor.

A voz era bela e uniforme, e fresca como um bálsamo. Trazia de volta as formas borradas dos soldados que passavam correndo frenéticos ao fronte.  A visão era embaçada pela noite, os fogos de guerra, e sobretudo a dor que vinha-lhe do lado.

Há poucos minutos algo atingira-o. Viera do céu, ou talvez do flanco esquerdo, e trespassou placas, cota, carne e costelas. Deixara agora uma mistura barrenta de sangue, vísceras e ferrugem. Há poucos minutos, mais pareciam uma eternidade.

Gritou por ajuda, e depois gemeu. A dor cerrou-lhe os dentes e arrancou-lhe o fôlego… Desmaiou por fim, mas voltou a despertar, chorando, lamentando o fim. O frio instalara-se no lado esquerdo, e seu braço já não movia, paralisado pela falta de sangue e o terror da morte.

Mas a irmã surgiu-lhe da escuridão, e pousando a mão sobre o peito sussurrou: – Seja forte. Diga-me onde dói. Ele ergueu as placas e mostrou a ferida. Estava lacerada e havia farpas de metal cravadas no fundo da carne.

E ela o beijou. Seus lábios pulsavam, vivos e rubros. Sua mão tocou-lhe onde doía e ele estremeceu. O corte aqueceu-se, cauterizando a carne e cuspindo fora os elos destroçados. Mas o calor trazia de volta a dormência da vida, o anseio do retorno.

E ele a sentiu estremecer, seus lábios ressecando e murchando. E conforme sua visão clareava, ela lhe parecia cada vez mais cinzenta, velha, sábia e reconfortante Misericórdia.


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