jul 29 2014

A voz do Anjo

Ajoelhado contra a pedra fria sentia as articulações doloridas e latejando. Tinha as mãos amarradas ás costas, estando vendado mas não amordaçado. Por que a dor? Podia sentir a textura áspera do cânhamo a roer-lhe os pulsos e tornozelos, abrasando a pele e torcendo-lhe os músculos.

O algoz ainda trabalhava, com gestos precisos e rápidos ao imobilizá-lo. Não falava, mas murmurrava constantemente, em um matraquear inconstante e incompreensível. Ouviu o sussurrar? Sua voz ou o farfalhar de suas vestes? Parecia estar nu. Por vezes parecia cantar, absorto em seu trabalho cruel.

Em pouco tempo finalizou o labor e levantando-se, deu as costas a seu prisioneiro. O silêncio e a escuridão tomaram seu lugar novamente. Sentindo-se só, apressou por reconhecer o território a seu redor. Tentou caminhar utilizando os joelhos, mas os tornozelos o traíram. Seus reflexos, ao contrário, reagiram de imediato ao girar o corpo enquanto caía. Aterrizou de modo violento com o ombro sobre um pedaço de madeira, sentindo o estralar dos ossos. Em pouco tempo a dor alastrou-se pelo braço incendiando a carne.

Travou os dentes para não gritar, e sentiu a umidade quente das lágrimas correndo-lhe sobre a fronte. Traçavam caminhos por sobre o rosto coberto de poeira, juntando-se ao escarro que esvaia das narinas. Preciso levantar, preciso lutar! Resgatou as forças para se erguer, e forçou uma, duas, três vezes. A cada novo esforço a dor se tornava mais insuportável. O pedaço de madeira rolou por sob seu corpo, alojando-se em um canto do lugar, inacessível aos seus empenhos.

Tinha dificuldade em respirar e os gemidos já lhe brotavam livres da garganta. Perdeu a consciência e a noção de tempo por um instante. Ou talvez mais do que isto. Lembrou – ou sonhou – com a noite anterior quando acampava no exílio. Quando foi isso? Há nove noites ou mais que estava distante de todos.

Em um determinado momento sentiu algo gélido e lhano roçar-lhe as costas. Esperança? Arrastou-se um pouco mais de modo a poder alcançar-lhe entre as mãos. O pedaço deslizou por entre os dedos arrancando um naco de pele e carne, fazendo o sangue escorrer livre em sua palma. A cruel lâmina da Esperança!

A nova ardência o trouxe de volta, disparando uma carga de adrenalina pela corrente sanguínea. Agarrou com firmeza ao metal e ao pouco que restava do cabo da lança e pressionou-o contra as cordas firmes. O metal cortava igualmente cânhamo e pele, dilacerando ainda mais os pulsos machucados. Passaram-se minutos, aos quais ficava próximo, cada vez mais próximo a sua liberdade. Finalmente o trançar da corda cedeu com um estalo, desvencilhando-o de vez.

Apoiado nas mãos, pôs-se de joelhos novamente e trouxe as mãos ao rosto a fim de retirar a venda. Pôde ver o rubor do sangue em suas mãos, mas foi tudo que lhe foi permitido, pois um golpe certeiro contra o peito o lançou de volta ao chão. Sentiu o ombro latejar novamente e antes que pudesse se recuperar o algoz estava sobre seu peito, segurando-lhe contra a pedra fria, com a cabeça de lança a cutucar-lhe as costas. Como ele havia entrado tão silenciosamente no lugar? Estava ali observando-o todo este tempo? Debateu-se em vão enquanto o outro alcançava a lâmina e posicionava-a contra seu pescoço.

Ouviu seus lábios aproximaram-lhe do ouvido, o hálito úmido e a voz entrecortada a sussurrar algo que não pôde discernir. Ansiava desesperadamente saber o por quê. Ao invés, foi presenteado pelo aço frio a vencer a pele e percorrer carne e cartilagem, abrindo-lhe em duas a traqueia. Gritou talvez, pela última vez.


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jul 28 2014

A hole inside…

I can’t keep pushing this down any deeper
Why do I keep trying if I can’t keep her?

Because it feels like there’s a hole inside my body
Like there’s a hole inside my heart
It’s like this feeling is gonna consume me

I’m so dumb, I should have just told you,
what I lost was a piece of you…

Pequena composição extraída de Adventure Time


jul 16 2014

Dreams


Glittering Heath I saw it all, gold lay beneath
And the Dragon did meet its bane and was slain and at Dawn at the
Valkyries hill, crossing the fire, acting her will
Was the slayer and how alive though it seems
I was there in my dreams

– Dreams, Týr


jul 15 2014

Eu lembro de você!

Eu sou seu Simon. Sou maluco e não lembro mais de você.
Na verdade nem sei o que isso significa.
Ou seria o contrário?


jul 13 2014

Última noite em Paris

Uma última noite antes do amanhecer. Paris é muito mais singela no inverno, mas em Julho o luar me lembra você. Caminho pelas ruas desertas, atravesso sarjetas cobertas de bitucas, tubulações esfumaçadas na noite de verão estrelado.

Não vejo você. Há mais de uma semana que você se foi e isto não me parece mais errado. Ainda uso o mesmo sobretudo e tenho no bolso o recibo da loja de flores. Mas não há mais o perfume das rosas ou o seu. Só a fumaça de uma Paris madrugando.

Apesar disto, ainda sinto a dor. A sua. Antes das luzes do amanhecer o silêncio impera, e nele eu percebo porque a minha não permaneceu. Partiu com você. Como se tivéssemos trocado de malas e fossemos destinados a carregar as mágoas do outro.

Ainda narro meus passos e meus pensamentos como se registrando, num diário, numa fita, uma cena de filme noir de baixa qualidade. Vejo a nós dois como personagens de um drama, de uma trama européia com aqueles finais indefinidos.

Meu vôo é em algumas horas, e eu ainda vago sem rumo. Meus últimos momentos em Paris, sob um céu estrelado e uma lua parcialmente encoberta. Noutra noite de Julho que não a nossa.


jul 12 2014

Visitando a Imperatriz

Antes que meus dias venham, decidi visitar minha musa, a Imperatriz. Andei a sua sombra e escutei paciente os acordes da sinfonia de seu caminhar. Seus olhos estavam velados, distantes aos meus, alheia a transformação a que me exige. Mal sabe ela que é seu o fruto encrustrado em meu âmago, colado precariamente com sangue e bile. E este fruto, esta seta maldita e peçonhenta faz de mim um monstro. Cria de sua criatura.


jul 8 2014

Visitado pelo Rei

Por quatro dias não haverá nada mais de mim que possa cair-lhe a vista. Talvez não nada, mas com certeza pouco. Uma pena ocasional, quem sabe? E após quatro dias talvez eu não tenha mais asas, ou os pedaços estarão colados e unidos novamente. Em quatro dias abrirá minha couraça, operará meu âmago, minhas farpas e meus anseios. Serei ainda um monstro? Uma mantícora, um grifo, ou um homem?


jul 7 2014

Lonesome Town, completa

– originalmente publicada em 08 de junho de 2012

There’s a place where lovers go
To cry their troubles away.
And they call it,
Lonesome Town,
Where the broken hearts stay.

You can buy a dream or two,
To last you all through the years
And the only price you pay
Is a heart full of tears

Goin’ down to lonesome town,
Where the broken hearts stay,
Goin’ down to lonesome town
To cry my troubles away.

In the town of broken dreams,
The streets are filled with regret,
Maybe down in lonesome town,
I can learn to forget.

Maybe down in lonesome town,
I can learn to forget.