A voz do Anjo

Ajoelhado contra a pedra fria sentia as articulações doloridas e latejando. Tinha as mãos amarradas ás costas, estando vendado mas não amordaçado. Por que a dor? Podia sentir a textura áspera do cânhamo a roer-lhe os pulsos e tornozelos, abrasando a pele e torcendo-lhe os músculos.

O algoz ainda trabalhava, com gestos precisos e rápidos ao imobilizá-lo. Não falava, mas murmurrava constantemente, em um matraquear inconstante e incompreensível. Ouviu o sussurrar? Sua voz ou o farfalhar de suas vestes? Parecia estar nu. Por vezes parecia cantar, absorto em seu trabalho cruel.

Em pouco tempo finalizou o labor e levantando-se, deu as costas a seu prisioneiro. O silêncio e a escuridão tomaram seu lugar novamente. Sentindo-se só, apressou por reconhecer o território a seu redor. Tentou caminhar utilizando os joelhos, mas os tornozelos o traíram. Seus reflexos, ao contrário, reagiram de imediato ao girar o corpo enquanto caía. Aterrizou de modo violento com o ombro sobre um pedaço de madeira, sentindo o estralar dos ossos. Em pouco tempo a dor alastrou-se pelo braço incendiando a carne.

Travou os dentes para não gritar, e sentiu a umidade quente das lágrimas correndo-lhe sobre a fronte. Traçavam caminhos por sobre o rosto coberto de poeira, juntando-se ao escarro que esvaia das narinas. Preciso levantar, preciso lutar! Resgatou as forças para se erguer, e forçou uma, duas, três vezes. A cada novo esforço a dor se tornava mais insuportável. O pedaço de madeira rolou por sob seu corpo, alojando-se em um canto do lugar, inacessível aos seus empenhos.

Tinha dificuldade em respirar e os gemidos já lhe brotavam livres da garganta. Perdeu a consciência e a noção de tempo por um instante. Ou talvez mais do que isto. Lembrou – ou sonhou – com a noite anterior quando acampava no exílio. Quando foi isso? Há nove noites ou mais que estava distante de todos.

Em um determinado momento sentiu algo gélido e lhano roçar-lhe as costas. Esperança? Arrastou-se um pouco mais de modo a poder alcançar-lhe entre as mãos. O pedaço deslizou por entre os dedos arrancando um naco de pele e carne, fazendo o sangue escorrer livre em sua palma. A cruel lâmina da Esperança!

A nova ardência o trouxe de volta, disparando uma carga de adrenalina pela corrente sanguínea. Agarrou com firmeza ao metal e ao pouco que restava do cabo da lança e pressionou-o contra as cordas firmes. O metal cortava igualmente cânhamo e pele, dilacerando ainda mais os pulsos machucados. Passaram-se minutos, aos quais ficava próximo, cada vez mais próximo a sua liberdade. Finalmente o trançar da corda cedeu com um estalo, desvencilhando-o de vez.

Apoiado nas mãos, pôs-se de joelhos novamente e trouxe as mãos ao rosto a fim de retirar a venda. Pôde ver o rubor do sangue em suas mãos, mas foi tudo que lhe foi permitido, pois um golpe certeiro contra o peito o lançou de volta ao chão. Sentiu o ombro latejar novamente e antes que pudesse se recuperar o algoz estava sobre seu peito, segurando-lhe contra a pedra fria, com a cabeça de lança a cutucar-lhe as costas. Como ele havia entrado tão silenciosamente no lugar? Estava ali observando-o todo este tempo? Debateu-se em vão enquanto o outro alcançava a lâmina e posicionava-a contra seu pescoço.

Ouviu seus lábios aproximaram-lhe do ouvido, o hálito úmido e a voz entrecortada a sussurrar algo que não pôde discernir. Ansiava desesperadamente saber o por quê. Ao invés, foi presenteado pelo aço frio a vencer a pele e percorrer carne e cartilagem, abrindo-lhe em duas a traqueia. Gritou talvez, pela última vez.


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