A tripulação do Högvind, pt. I

O fundo do barco raspou contra as pedras, fazendo um ruído seco conforme rasgava um sulco para encalhar na praia. O primeiro par de botas e grevas de metal surgiu num estrondo metálico, arrastando ainda mais pedras conforme o cavaleiro tropeçava e se apoiava no escudo para não cair. O segundo par veio logo em seguida, um pouco mais gracioso e confiante, com o tilintar sonoro da cota de malha.

Wilfred e Robin se entreolharam no nevoeiro denso que cobria a costa. Ela ergueu uma sombrancelha num sinal de curiosidade e questionamento, instigando o cavaleiro a um dar de ombros despreocupado. Ele voltou-se para onde deveria estar a vila, ouvindo o som distante do ranger de madeira. Um pássaro desconhecido cingiu o ar a volta deles, e Robin desejou saber se o presságio era favorável ou não. Temia o que a manhã traria.

A garota trazia um manto comprido sobre os ombros, nos quais lhe caíam também longas madeixas acastanhadas. Uma túnica de lã azul ocultava os elos da malha, mas permitia sobresair-se as luvas de couro, cotoveleiras e perneiras de metal. Seus lábios estavam contraídos num formato incomum para seu comportamento, tornando um pouco dos incisivos evidentes.

Observava enquanto o cavaleiro se aventurava na névoa baixa, seu manto branco e surrado ocultando a armadura de placas, mais vistosa que a sua própria. Os cabelos loiros eram amarrados num rabo-de-cavalo fora alguns fios que soltaram-se no movimento súbito de saltar sobre a amurada. Há tempos já foram rajados por fios vermelhos, mas hoje Wilfred os traz prateados a emoldurarem as têmporas.

Robin o acompanhava lentamente, e somente o raspar metálico de seus passos é perceptível nos seixos da praia. Até que o grito de guerra soasse. Houve o bater de um tambor, um rugido gutural e o som de passos rápidos e desequilibrados em direção deles. O primeiro vulto surgiu da névoa dezenas de metros a frente, trôpego e nu, mas portando uma lança ou uma haste semelhante. Outros vinham a seguir.

Os dedos da garota tremeram, mas ela controlou-se o suficiente para buscar o cabo da espada, que retirou da bainha com agilidade obtida no treinamento diário. Ergueu a espada para o companheiro que recusou com um novo dar de ombros. Você não é mais uma escudeira – disse – faça as honras. E desembainhando sua própria espada, deu um passo em direção a ela.

Os lábios se tocaram levemente, trazendo o rubror, o êxtase e uma coragem renovada. Ela sorriu da maneira que ele a conhecera, e apoiada pelas palavras e gestos dele, receberam junto a investida dos atacantes. Os passos eram rápidos e precisos, quase uma dança, e as espadas subiam e desciam como lâminas de um arado. Lutavam pela liberdade, pela justiça, e sobretudo pelo sentimento que compartilhavam.


Uma Resposta para “A tripulação do Högvind, pt. I”

  • ferio Says:

    Promissor. Muito bom e continuidade é necessária. Teus personagens envelhecendo contigo =)

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