A tripulação do Högvind, pt. III

O cavaleiro ainda estava caído quando Robin o alcançou. De joelhos ao lado dele ela já não gritava, ao invés disso soluçava baixinho procurando encontrar o que dizer. As lágrimas escorriam pela face coberta de fuligem, criando dois caminhos luminosos em suas bochechas. Os olhos de ambos se encontraram e as mãos dela foram tomadas entre as manoplas dele. Você sabe as palavras – ele disse – é só repetir.

Removendo as luvas de couro, ela sentiu o pedaço de lâmina partido sob a falha na armadura. Conteve o soluço e esfregou os olhos contra o manto de lã encardida em seus ombros. Respirou fundo e alcançou a farpa metálica entre os dedos. Entoava as palavras que lhe haviam sido ensinadas há muito tempo, antes de conhecer Wilfred: voluntas quidem cordis mei. As palavras que outroram foram seu júbilo e sua queda, agora traziam uma esperança para os tendões partidos de seu companheiro.

Foi necessária alguma força para retirar o que restava da faca, mas Robin o fez com precisão. Ergueu a lâmina e a atirou ao longe, surpreendentemente perto de onde havia deixado sua própria espada. Via a fumaça se dissipar em padrões espiralados diversos, e corpos carbonizados por todos os lados. A fumaça também se erguia dos corpos, e diversas manchas negras e sibilantes se espalhavam a volta deles. Engasgou por um breve momento, as lágrimas novamente se insinuando no olhar.

Logo Wilfred tentava se levantar, usando somente o braço bom. Os cachos castanhos da garota envolveram o ombro direito dele enquanto ela o erguia, os olhos e os lábios dela próximos aos seus. Para ele, a jovem parecia ferida, confiança e devoção traídas expressas num olhar de angústia. Se havia algo que não envelheceu com Wilfred, foi sua habilidade em sondar as pessoas, especialmente àquelas próximas.

Ao longe vislumbrama a armadura negra de Talus em meio aos escombros. Erguia algo do chão, observando os padrões de luz que se formavam enquanto a cortina de fumaça se abrandava. Wilfred percebeu o olhar de Robin e temeu. Soube que não teria seu apoio pelos próximos momentos, que os sentimentos dela explodiriam em fogo e fúria comparáveis aos iniciados pelo feiticeiro. Percebeu tudo isso antes que a mão dela alçasse a lança fincada ao chão.

A lança voou certeira até a manopla de Talus, e mesmo sem cravar-se na armadura provocou um estalo metálico e um rugido de dor. O artefato que ele segurava rolou pelo chão de volta aos escombros, enquanto amparava o braço com a mão intacta. O elmo se ergueu e os olhos flamejantes encaravam a jovem escudeira que caminhava em sua direção sem medo, repleta de orgulho e vingança.

Ela notou que a lã em seus ombros fumegava e pequenas centelhas despertavam em meio aos pontos. Desprendeu o manto e deixou-o ir ao chão enquanto apanhava novamente sua espada. Saltou a viga carbonizada de um casebre que veio abaixo e em um instante estava frente a frente com seu oponente. Talus não portava armas, mas suas manoplas negras irradiavam um brilho sobrenatural e chiavam insistentemente.

Robin deu um passo para a direita e ergueu a espada, mas assim que o feiticeiro estendeu o braço para apará-la, ela fintou e lançou a espada contra a perna mais próxima. A lâmina se chocou ao ferro negro da armadura, provocando outro estalo, um sulco no metal e o recuar do feiticeiro. Não se importa com ninguém além de você mesmo – rugia ela – não sinto mais pena de você, da suas marcas ou da sua dor!


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