A tripulação do Högvind, pt. IV

Talus trocou o pé de apoio; estava ferido, mas não vencido, e não desistiria da luta tão facilmente. A armadura negra chiou quando tocou a poça d’água, erguendo uma pequena nuvem de vapor branco. Mas conforme a água subia, a armadura esfriava e cessava o chiar. Logo perceberam – tanto ele quanto Robin – que a maré subia rapidamente envolvendo os destroços das choupanas e carregando para o mar os corpos dos defensores da praia.

Robin tentava equilibrar-se sobre uma viga que balançava sob efeito do bater ritmado das ondas. A água era fria, salgada e sem espuma, fluindo praia acima como se tomada de uma força magnética irresistível. Não havia ruído de quebrar de ondas, somente o serpentear do mar colina acima, envolvendo areia, gramado e as construções. Era possível mesmo ver a cabeça-de-dragão do Högvind despontando da névoa matinal.

Logo mastro e cascos se fizeram aparentes, o sol da manhã refletindo contra os elmos dos homens ainda protegidos pela amurada. A vela estava recolhida e os remos levantados, mas o longo barco subia a maré com a mesma força sinistra que erguia a maré. O vento soprava gentil, agitando os castanhos da escudeira e apagando as centelhas ainda presentes da fúria do feiticeiro. Ambos pasmos, ele com água já ao peito, e ela apoiada sobre o que restou de um casebre, não sabem como continua o embate.

No alto da proa, apoiados na carranca-de-dragão, três figuras eram clamanete visíveis. A primeira, uma garota pequena e magra, segurava um pequeno pandeiro e batia-o ritmadamente contra a coxa. Trajava um vestido simples de malha azul, os cabelos prateados em duas longas tranças a cair sobre os ombros, repletas de pequenos ramos e flores brancas entrelaçadas. Atrás dela um homem de cabelos negros e sem barba, enlaça sua cintura com uma das mãos enquanto segurava uma criança com a outra. Veste uma calça larga e surrada, amarrada por uma tira de tecido amarelado, e um colete de couro a cobrir o peito. Amarrado ao colete, outras tantas pequenas tiras de tecido, trançadas e dobradas, formando um padrão de listras coloridas.

A brisa parecia dançar em volta da pequena família, brincando com seus cabelos, com os pequenos ramos e as tiras de tecido amarradas. Estes são Llanw e Braese, a força motriz e trunfo do Högvind, seres feéricos de uma terra distante com estranho poder sobre os elementos. A criança ainda não tem nome pois não escolheu um para si, e eles a chamam somente de “pequena”. Ela brinca, tentando agarrar o pandeiro dos dedos da mãe.

É difícil saber o que os motiva, certamente não a mesma paixão que Robin e Wilfred, ou a fúria de Talus. Os sidhe trazem um mistério em seus grandes olhos azul-turqueza e na estranha música que entoam. Acompanham e impulsionam o longo barco, fazendo-o cingir as águas com extrema segurança e agilidade. Até o dia talvez, em que por capricho ou pela razão, o destino do Högvind já não lhes interesse.

Mas enquanto isso, Llanw deixa a criança nos braços da mãe, e mergulha próximo ao feiticeiro. Em um instante retorna a superfície, alcança a amurada e se iça para cima. Água escorre pelos seus cabelos e pelas roupas, grudando-lhe a calça às pernas, o colete ao peito. Traz consigo na mão direita, uma estranha orbe de cor azulada, coberta por um padrão de cores líquidas e segura por um aro de metal dourado.


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