abr
21
2012
As pessoas costumam pensar na morte como algo absoluto, imutável e derradeiro. Recentemente tenho ponderado muito sobre o assunto, lendo conceitos de outros autores e revendo os meus próprios conceitos.
Concluí que a morte é relativa - e bem relativa, diga-se afinal.
- A morte se apresenta em estágios; sendo o primeiro deles o de não-morte (undead). A maior parte de nós está passando neste momento por este estágio, sem prestar atenção a nossa própria mortalidade e ao estágio que virá a seguir.
- Alguns poucos de nós estão no estágio de ligeiramente mortos, já mais conscientes da verdade e do outro lado da moeda. Este estágio exige uma certa reflexão, melancolia e até mesmo alienação.
- O estágio de mortinho da Silva chega com conforto e descanso. Finalmente, após tanta reflexão e estafa psico-filosófica e mental, nos recolhemos ao nosso sono profundo e acreditamos que isto é tudo. É o estágio que os ignorantes tomam por derradeiro.
- Além disto vem o estágio da iluminação, que chamo tão morto como um prego de porta (como citado por Dickens). Nesta etapa vemos o outro lado do espelho, e nos sentimos tentados a partilhar este discernimento com aqueles que estão ainda não estão lá.
- Finalmente, o renascido. Após uma eternidade preso as correntes, caixilhas e pregos no estágio anterior, o indivíduo se consome e desaparece. Perde então a consciência da morte e retorna ao estágio 1.

2 comentários | tags: morte | em pensamento, prosa
abr
9
2012
Há algumas semanas, recebi da Cissa o anúncio de um concurso de contos da Livraria Catarinense. Decidi hoje cedo revisitar algumas das minhas prosas mais antigas e verificar se ela se encaixaria no proposto para o concurso. Tal foi o resultado:
Então, sem saber qual escolher, venho solicitar ao meus amigos que, se possível comentem aqueles que mais gostaram. Dentre os acima ou outros no blog.
Os dois selecionados serão revisados (é claro) para remover eventuais falhas e se adequarem às novas regras gramaticais da língua portuguesa. Se alguém se prontificar a revisar, fico muito agradecido.
Obviamente isto não garante que eu serei aprovado no concurso, até porque duvido que os avaliadores compartilhem comigo do apreço pela morte expresso nos textos.
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mar
27
2012
Segue a comitiva entre os cães. Traz consigo peças diversas de armaduras presas sobre o gibão. Malha e placas, uma no ombro, outra no punho, talvez um gorjal amassado. Parecem ter sido coletadas e unidas a partir de diversos conjuntos diferentes. Tem consigo um escudo sem brasão. Foi apagado, ou rasurado há muito tempo.
A barba por fazer é falhada junto ao queixo. A face encovada e mãos ossudas que tremem ligeiramente. Os olhos sem cor, seguem fixos ao chão. Por vezes encontra algo a que atribui algum valor, e coleta. Põe tudo numa grande sacola que enverga-lhe as costas. Não parece haver muito, mas é suficiente para reduzir-lhe as passadas.
Dizem alguns que são as sobras da comitiva real que coleta. Outros, que é menos que isto. Mas ele parece não se importar, ao contrário, baixa a cabeça as críticas dos senhores e seus cavaleiros. Dizem que ele mesmo foi cavaleiro outrora, e que a espada que carrega a bainha, o único e verdadeiro presente de uma rainha.
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mar
26
2012
Chegara em casa cansada e abatida. Junto aos ombros, colo e nas pálpebras inferiores trazia a rastejarem pequenas mágoas. Cada qual possuía pequenas quelíceras, pedipalpos e ferrões que cavavam a pele e enterravam-se na carne.
Assim que abriu a porta, a gata doméstica veio-lhe ao encontro, esfregando-se na barra da calça. Brincava, como que valsando com seus sapatos e miando exigia veneração e oferendas.
Aproximou-se do sofá e desabou, espalhando ao chão as pequenas mágoas rastejantes. A gata parou por um momento a observá-los, mas por fim se lançou sobre elas, esviscerando, desmembrando e devorando-as todas.
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mar
23
2012
Morto, apodrece. Crânio fraturado em seu parietal e ocipital. Este último já quase não existe. A mandíbula jaz aberta, esgaçada, como se num grito silencioso. Coluna arqueada, costelas expostas e fraturadas parecem lâminas tortas a despontar por sob a pele e carne. Não há muita, decadente e putrefata. Tíbias se encontram, junto ao resto das mãos, distantes do corpo. Parecem ter sido puxadas num ímpeto de expor o tórax. Mas a ausência mais sentida é do segundo par de úmeros, ulna e metacarpos que os acompanham.
As asas se foram – conclui o especialista.

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mar
22
2012
Pondo o gato sobre a mesa de madeira velha, prende-o entre os grossos dedos e com uma velha faca rasga-lhe o pescoço e abdômen.
Recolhe o sangue do animal e sua bile em um prato fundo, e adiciona um perfume suave e uma maçã embolorada.
Esmaga-os. Por fim, banha o amuleto negro na infusão recitando as antigas palavras em frente ao espelho.
A maldição virá, trará com o tempo rugas, talvez um tornozelo quebrado e decepção.
E cobrará seu preço, na medida de três vezes mais…
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fev
27
2012
Volto a te procurar após meu longo exílio. Bato a porta mas ninguém atende. Sei que está aí, sei que se esconde. Eu a vi enquanto me seguia naquela madrugada. Semana passada deixei um recado avisando que voltaria. Mas você não está, ou finge que não. Eu sei.
Vejo os panfletos turísticos acumulados na entrada. Anunciam tua breve partida. Seria uma fuga, ou uma oportunidade que surgiu? Você não me deixaria desta forma, eu sei. Não posso culpar-te. Tentei obedecer todas as regras, mas estou aqui a sua porta novamente.
As correspondências chegam toda quarta-feira. Reconheço nisso tua mensagem. Voltarei bem cedo na quarta, e quando você abrir a porta estarei aqui. Combinado? E veremos novamente sentido em tudo isso. Eu sei!
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fev
17
2012
Disse que me amava, no passado, presente e vindouro. Encontrei as palavras rascunhadas numa pequena nota, abandonada enquanto a perdia dentro de mim.
Aquele pedaço de papel transcendeu os limites do próprio tempo e imortalizou um sentimento encrustado em sua superfície.
Ainda lembro de como suas garras escaparam ao beiral e mergulhou na escuridão. Somente o silêncio e a marca dos arranhões, que demoraram a desaparecer. Sob a crosta, no entanto, outras lembranças pelas quais não posso sequer agradecer-te, pois não a encontro novamente.
Já tão inserida em meu âmago que desfaz todas as tentativas em percebê-la, separá-la de minha psiquê. Acredito que enlouqueceria se te encontrasse novamente, e perderia-me contigo. Permaneço são portanto, na busca que perdura além da eternidade.
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jan
19
2012
Uma flâmula azul tremulando no horizonte foi o que me chamou atenção naquela tarde. Havia, é claro, nuvens de poeira e o clamor do aço contra o aço mas o cisne argênteo sobre o campo l’azure capturou meu olhar. Conhecia o estandarte, conhecia seu portador.
Saltei de sobre as muralhas e corri a seu resgate, temendo pelo pior. Mas sequer poderia se comparar ao que eu veria em campo: o cavaleiro, portando completa armadura de placas conduzia seu garrano violentamente contra um oponente idêntico a si.
O choque das lanças arremessava lascas de freixo, algumas tão extensas quanto meu antebraço, ao ar. Escudos tinham as tinturas gastas pelo embate e as placas aqui e ali apresentavam deformações diversos. Em lastimável estado se apresentavam os cavaleiros, ofegantes e exaustos da batalha.
Eu não podia ver suas faces e a falta de discernimento não permitiu-me tomar partido embora, nos movimentos de olhos e gestos de ambos os reconheci o guerreiro sob a armadura. Meu amigo duelava contra si, indeciso sobre desistir ou subjugar a si mesmo. De imediato, larguei a espada e adotei meu papel na contenda: seria eu a confortar o derrotado.

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dez
19
2011
A gaveta de madeira emitiu um som denso ao ser arrastada para fora. Estava abarrotada. Quando escriturário, adquiriu o hábito de coletar todos os papeis que parecessem meramente importantes. Diversas contas já pagas ou vencidas, algumas das quais protestadas; certificados de diversos cursos e aptidões, as cópias de certidões das duas filhas, de vacinação do gato, e no fundo, bem ao fim da gaveta um envelope pardo amassado envolvia um peso de papel incomum.
Era denso e pesado, e enquanto desembrulhava-o era possível sentir o frio do metal contra o papel. Mesmo sem vislumbrá-lo era possível sentir a ansiedade e desesperança que invocava. A empunhadura não era tão fria, em material que imitava madeira encaixava-se de modo débil na mão que tremia. Parkinson o doutor lhe dissera.
Algumas folhas voaram gaveta abaixo, espalhando-se pelo chão enquanto ele o puxava para fora. Papel contra a pele provoca o som arrastado e distinto, que lembrava o trovejar distante do prenunciar da tempestade. Mas não haveria chuva; a tempestade iminente tinha outra origem, num orifício de metal próximo de um centímetro de diâmetro que despeja pólvora, fogo e destruição.

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