jan 19 2012

A Contenda

Uma flâmula azul tremulando no horizonte foi o que me chamou atenção naquela tarde. Havia, é claro, nuvens de poeira e o clamor do aço contra o aço mas o cisne argênteo sobre o campo l’azure capturou meu olhar. Conhecia o estandarte, conhecia seu portador.

Saltei de sobre as muralhas e corri a seu resgate, temendo pelo pior. Mas sequer poderia se comparar ao que eu veria em campo: o cavaleiro, portando completa armadura de placas conduzia seu garrano violentamente contra um oponente idêntico a si.

O choque das lanças arremessava lascas de freixo, algumas tão extensas quanto meu antebraço, ao ar. Escudos tinham as tinturas gastas pelo embate e as placas aqui e ali apresentavam deformações diversos. Em lastimável estado se apresentavam os cavaleiros, ofegantes e exaustos da batalha.

Eu não podia ver suas faces e a falta de discernimento não permitiu-me tomar partido embora, nos movimentos de olhos e gestos de ambos os reconheci o guerreiro sob a armadura. Meu amigo duelava contra si, indeciso sobre desistir ou subjugar a si mesmo. De imediato, larguei a espada e adotei meu papel na contenda: seria eu a confortar o derrotado.


dez 19 2011

Doom Metal

A gaveta de madeira emitiu um som denso ao ser arrastada para fora. Estava abarrotada. Quando escriturário, adquiriu o hábito de coletar todos os papeis que parecessem meramente importantes. Diversas contas já pagas ou vencidas, algumas das quais protestadas; certificados de diversos cursos e aptidões, as cópias de certidões das duas filhas, de vacinação do gato, e no fundo, bem ao fim da gaveta um envelope pardo amassado envolvia um peso de papel incomum.

Era denso e pesado, e enquanto desembrulhava-o era possível sentir o frio do metal contra o papel. Mesmo sem vislumbrá-lo era possível sentir a ansiedade e desesperança que invocava. A empunhadura não era tão fria, em material que imitava madeira encaixava-se de modo débil na mão que tremia. Parkinson o doutor lhe dissera.

Algumas folhas voaram gaveta abaixo, espalhando-se pelo chão enquanto ele o puxava para fora. Papel contra a pele provoca o som arrastado e distinto, que lembrava o trovejar distante do prenunciar da tempestade. Mas não haveria chuva; a tempestade iminente tinha outra origem, num orifício de metal próximo de um centímetro de diâmetro que despeja pólvora, fogo e destruição.


set 2 2011

Entwined

Eternally EntwinedOcasionalmente deixo minha fortaleza e volto às colinas onde outrora haviam os campos que semeei,… que semeamos. Pouco lembram as pradarias do passado, hoje cobertas por ervas daninhas e grama selvagem. O pomar transformou-se num pequeno bosque, repleto de pássaros e pequenos espreitadores.

Na manhã gélidas, o orvalho torna a visão ainda mais bucólica, cobrindo com uma fina camada de luz leitosa as verdanias e refletindo os primeiros raios do sol nascente. Mesmo sobre as pequenas muradas e as águas parcialmente descobertas do antigo chalet, o saudosismo se derrama perene.

Mais adiante, sobre uma solitária laje branca nossas árvores tecem sua sombra ainda entrelaçadas, alheias às estações que se sucedem. A primeira, coberta em musgo e líquem é tua, Decepção; e a cinzenta e estéril, meu Ressentimento.

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ago 17 2011

Encanto

There’s nothing like a broken childhood
O pai chegava religiosamente ás 3:12 da manhã, considerando a caminhada trôpega desde o bar na esquina que acabara de fechar. Acordava a esposa aos berros quando ela mesma não o esperava de pé. Batia nela. Batia muito.
E depois subia a seu quarto, os passos errantes ressoando pelo assoalho enquanto galgava os degraus. Entrava no quarto puxando da calça o longo cinto de couro. Os gritos se faziam ouvir na madrugada.

There’s nothing like a broken home
Certo dia ela fugiu. Não aguentava mais as surras, pensou, sem considerar o envelope com o carimbo da clínica sobre a mesa da cozinha. Soube quando encontrou as roupas recolhidasdo varal sobre o sofá da sala. Não a culpou.
E então eram somente os dois, as brigas mais frequentes, embora ele agora revidasse. Muitas vezes o pai já não voltava para casa, ou quando voltava, passava as madrugadas em frente a TV, chorando baixinho.

There’s nothing like a tale from your hood
Destacou-se no colégio, ganhou uma bolsa e foi para a universidade. Tornou-se uma lenda na vizinhança e só aparecia nas vezes que o pai tinha crises. Contratou uma babá e esqueceu-se. Mais do que ele merecia, na verdade.
Conheceu-a numa conferência. Ela era ainda estudante e tinha nos olhos aquela admiração ostentosa da juventude. Os cabelos cheiravam a chocolate. Deu-lhe duas filhas e casou-se no dia de São Miguel.

There’s nothing like a record of restriction orders
Levou as meninas embora. Grazi tinha uma mancha negra no braço e ela o culpava. A mais velha já o odiava há anos e a puberdade tornava tudo pior. Sua atenção era voltada agora para celulares e garotos. O pai perdera o posto de herói quando enjoou de chocolate e começou a beber.
Recebeu a intimação em casa, das mãos da oficial de justiça que o recriminava com o olhar. Era de sua antiga vizinhança, ele supunha, mas não queria perguntar. Guardou-a na mesma gaveta onde haviam os papéis não assinados do divórcio, o contrato da babá e o envelope com o exame sua mãe. Pensou em emoldurar.


A idéia veio de uma série de influências externas: seriados (Lie to Me, Big Bang, CSI), filmes (Finding Forrester, entre outros), contos (Neil Gaiman especialmente) e mesmo algumas lembranças pessoais. Atraídas juntas recentemente pela música Spitfall, do Pain of Salvation.


ago 12 2011

Familiar

Empoleirava-se no alto de uma trave de cadafalso, e  já faziam dias desde minha última refeição. Contra o cinzento acima, sua penugem negra pouco contrastava e por muito pouco não deixo de notá-lo. O exílio já obrigava-me a fazer concessões, e para o estômago faminto parece haver muito pouca diferença entre um frango e um corvo.

Tendo ponderado sobre isto, cravo minha lança ao chão e encordo o arco do modo mais silencioso que pude. A madeira escorrega entre meus dedos suados, mas aos poucos dou cabo da tarefa. Separo uma única flecha reta de seta larga, sabendo que não terei uma segunda chance e, de modo mecânico, encaixo-a na corda.

O movimento seguinte dá-se em uma fração de segundo; erguer o arco e soltar a flecha torna-se um movimento só com a prática. Apesar disto, minha pontaria não parece melhor hoje do que a primeira vez que disparei. A flecha voa reta e acerta a asa esquerda do pássaro que, desequilibrado vai ao chão.

Minha habilidade para a escaramuça no entanto, aprimorou-se dia-a-dia e eu não perco o momentum. Alço a haste da lança com a mão direita e corro de encontro ao corvo. Desajeitadamente ele tenta erguer-se do solo, mas pernas e asas parecem fragilizadas pelo impacto.

Surpreendo-o pisando sobre a asa ferida. Ouço as penas partindo sob o solado da minha bota e sorrio, antecipando o gosto de sua carne sobre as brasas. Encaro seu olhar negro e recriminador como se pela primeira vez, embora certo da familiaridade que nos une.

As mãos erguem a haste sobre minha cabeça e eu desejo uma morte breve e indolor ao meu algoz. A lança desce uma vez mais,…

E então sinto o impacto no ombro me derrubando ao chão. A visão me falha, o pulso acelera e o suor escorre gélido, pelo meu peito e pescoço. Existe algo mais escorrendo, quente e abundante ombro abaixo, tornando o chão rubro. A dor é lacerante no sentido real da palavra, percebo minha carne fender-e e separar-se, afastando o ombro de seu lugar de origem.

Ergo os olhos em busca de meu agressor e então meu braço é novamente ferido, torcido e esmagado contra o solo por uma força muito superior a minha própria. Sinto os ossos estalando e partindo; a dor me chega mais quente e rubra que o sangue e ao canto do olho vislumbro um aguçado brilho metálico.

Encaro meu oponente uma vez mais, ciente do vínculo que nos aproxima. E antevejo o que virá a seguir…


ago 1 2011

O sétimo Amanhecer

O sétimo dia amanheceu chuvoso e frio, tal qual a noite que o precedeu. Você deveria ter retornado no quinto dia, como o disse e, mesmo sem acreditar, desejei que fosse verdade. Mas você não veio.

Lembro-me claramente do dia que você partiu, de como virei as costas para não ver tua silhueta desaparecer contra o horizonte. Talvez temesse o momento, talvez temesse o que ainda viria. O primeiro dia foi repleto de visões e delírios, pareceu-me um sono inquieto ao qual recusava-me a despertar.

Mas na manhã seguinte despertei preocupado. Mantive-me por perto da colina, mantendo teu legado tanto quanto pude. Mas no terceiro dia, o abrigo começou a desmoronar. Trave sob trave, fora arrastado para o solo imposição do tempo e do clima.

O quarto dia trouxe um brilho melancólico, leitoso, que despontou dentre as nuvens. Trouxe também a consciência de minha situação. Não houve chuva no quinto dia, quando você achou que voltaria. Talvez o sol a tenha encontrado e você decidiu se estabelecer ou a tempestade levou-a ainda mais para longe.

O fato é que você não retornou, creditando-me as palavras que respondi naquele dia derradeiro. Também não houveram sinais no sexto dia e a apreensão fez de mim seu lar novamente. Já não almejo tanto o teu retorno, mas me pergunto onde teus passos te levaram, onde eles se desviaram dos meus.

Empacoto minhas coisas na mochila logo pela sétima manhã e decido, talvez, seguir teus passos uma vez mais. Espero que isto me leve a suportar melhor tua ausência. Não quero pensar que terei que lidar com esta ausência um dia mais.

Torço, rezo, para que a oitava manhã traga como bênção a ausência do despertar; pois passei a prefirí-lo a ter meu juízo repetidamente torturado a cada novo dia…


jul 12 2011

Um bom dia para Fugir

Ontem foi um bom dia para fugir, ligar o carro e dirigir até a beira-mar. Lá, sentar sobre o capô e vislumbrar os navios deslizando no horizonte enquanto o vento frio nos traria o inverno aos narizes, orelhas e os dedos desprotegidos das mãos.

Ontem, o celular poderia tocar, mas o rugir das ondas contra a baía afastaria todos os outros sons para longe. Seríamos nós, eu e você, o vento a cruzar o cinzento do céu erguendo as pipas do solo, afastando as nuvens e criando a espuma das ondas.

Ontem foi um bom dia para fugir, mas hoje eu me descubro sozinho em frente a um mar revolto que a maré deixou. Levou embora meu vento e trancou suas lembranças fundo em mim.

Se ainda fosse ontem, eu fugiria. Voaria contigo ao sabor do vento, para onde a vida não pudesse nos alcançar.


jun 17 2011

Congelado, parte 2

Eu já não podia sentir meus dedos. Tato, paladar e olfato foram tragados pelo frio e misteriosamente meus olhos e ouvidos foram parcialmente poupados. O açoitar do vento tornou-se uma canção constante e até onde minha vista alcança somente em um cinza difuso o mundo se manifestava.

Havia sacrificado tudo isso por ela e mesmo minha alma jazia agora encarcerada sob um cristal de gelo. Correria para ela se pudesse, para o calor de seus braços se vontade ainda houvesse. Mas minhas forças há muito haviam sido tragadas pelos fiordes, seu torpor e seus açoites.

- Diga-lhe que congelei - as palavras ainda ressoavam em minha mente quando meu fiel Leifr veio a mim. Prostrou-se cautelosamente a meia jarda das ameias, observando o continente sul encoberto pelas névoas.

- A rainha não suportará, meu senhor – manifestou-se pesaroso - mas não há o que se possa fazer, nada sob a rocha-de-gelo. Estendeu a mão para meu ombro, mas ela deteu-se fosca e difusa centímetros adiante, na superfície cristalina que me mantinha. - Um dia talvez, se o inverno partir, terá sua própria voz para respondê-la.


- continuidade ao Congelado, e atendendo a pedidos da Amanda e da Patrícia

 


jun 15 2011

Recordações

A campainha tocou logo cedo. Ainda de pantufas e com a escova de dentes na mão corri até a porta, mas não havia ninguém no corredor. Ouvi uma risadinha marota e me voltei para as escadas, mas somente um vulto escuro passou pelos meus olhos.

Mas diante da porta havia uma pequena cesta de vime coberta por papel de seda. Ergui cuidadosamente e fechando a porta com o pé, levei-a até a mesa da cozinha. Sob a cobertura de papel haviam dezenas de lembranças, congeladas em papel brilhante.

Algumas eram alegres e amareladas, laranjas ou vermelhas, mas também haviam aquelas verdes e as azuis… ah, as azuis… grandes panoramas celestes que continham o brilho dos nossos olhos. Haviam as velhas lembranças em sépia, e os dias melancólicos impressos em preto e branco, nebulosos e desfocados. Fotografias de tudo quanto é tipo e gênero.

Eram figuras de tempos que eu nem lembrava mais, de pessoas que mal recordava e que nunca imaginei haverem sido fotografadas.

Uma velha imagem de meu pai e mãe comigo ao ventre, e outra de meus irmãos rolando sobre a relva do sítio de meu tio-avô. Uma fotografia do Cristiano nos tempos de primário, e as velhas rachaduras do meu quarto. Havia uma da noite estrelada vista de sob a cortina e uma das primeiras imagens do meu cachorro. Figuras dos meus canários, do meu primeiro amor não correspondido, das quedas e dos passeios de bicicleta, dos almoços de família e da pose de coralista com gorro de natal.

Tantas e tantas recordações… e dentre as últimas, uma foto sua. Agarradinha ao meu braço, sorrindo com aqueles imensos olhos brilhando da maneira que você disse que somente eu sabia fazer. Senti saudades e vi seu recado colado junto a geladeira, dizendo que traria pizza e sprite para o jantar.


Publicado inicialmente em algum momento de 2004.
Omiti aqui o último parágrafo, pois este trata-se hoje de um rumo diverso a esta realidade…


abr 26 2011

Congelado

Fui enviado ao sul, para assegurar os bastiões e as passagens nas fronteiras mais longínquas. Há muito tempo candidatei-me a este serviço fui honrado com o título que o acompanha: senhor do Fiorde Branco, defensor das Escarpas do Açoite e protetor da Rainha de Vidro.

E foi lá que o emissário me encontrou, recostado às ameias negras da última fortaleza sobre o mar cinzento. Estava fatigado e isto se tornava evidente na quantidade de vapor que exalava de seu hálito. Trazia em sua mão um envelope com o selo de vossa majestade

Quebrou o selo diante de mim e, aos gritos apresentou-me o conteúdo da epístola. Esperou pacientemente que eu me pronunciasse. O vento uivava ruidosamente e permiti que, afora isto, o silêncio reinasse entre nós. Conforme entorpecia-nos os sentidos, aumentava sua urgência.

- Meu senhor, vossa rainha exige uma resposta a sua convocação - finalizou.

- Diga-lhe que congelei - desabafei. Velhas mentiras tornaram-se verdades e minha disposição foi sepultada sob uma muralha de gelo. Sei que ela não me perdoará, mas diga-lhe que permanecerei no sul.

Talvez eu o tenha dito baixo demais, ou talvez tenha congelado realmente pois ele permaneceu ainda alguns minutos incrédulo a esperar uma resposta. Por fim desistiu e partiu, deixando-me só ainda sobre as ameias do modo que me encontrou.


- inspirado na música Frozen, do Within Temptation