abr 19 2016

Desilusão

The feeling is more than I’ve ever known
I can’t believe it was just an illusion
– The Lost Song Part 2, Anathema

As paredes escorriam lentamente, liquefeitas em um tecido miócito que já não suportava a si mesmo. Através das armações expostas das doze colunas ivórias conseguia vislumbrar o céu. Três pares de colunas eram falsas e apresentavam nenhuma sustentação, outros dois flutuavam em conjunto com as paredes. Toda a fortaleza parecia vir ao chão a qualquer momento.

Lá fora a escuridão chovia, em uma precipitação negra e fria que roubara do céu a tonalidade, tornando-o pálido e opaco. As janelas fragmentadas permitiam o escorrer da sombra em estruturas filiformes por sua face. Contrastavam com a alvidez falsa da maquiagem e com o sentimento pacífico que sentia. Agonia ali não existia, ao contrário, apática satisfação.

Deitou ao relento, coberta e confortada pela noite sem cores e sem estrelas, e adormeceu. E em seu sono foi assaltada por um pesadelo que questionava sua identidade, suas certezas, seu chão. Perdida numa realidade que não a sua, repleta de caos pulsante e vibrante, temeu não poder mais retornar para casa.


jun 8 2015

Um abraço que tenho para buscar…

Ontem um abraço me foi dado; tomado talvez
Quem o iniciou precisava mais dele
Do que eu acreditei que precisava

Apesar disso, o singelo ato me alegrou e desmoronou
Pois é o primeiro abraço que tenho em oito meses
E porque é o que tenho esperado todo esse tempo

Mas o anseio e o receio caminham de mãos dadas
Desde que naquela noite, 8 meses atrás, me disse
“Devia ter te abraçado bem forte”


abr 23 2015

Ainda outra fantasia…

-continuidade a Outra fantasia…

Surgiu num outro amontoado de folhas num universo paralelo. A trança direita se desfez no caminho deixando os cachos soltos e um amarrador amarelo do Jake pendurado como se a lutar pela vida. O dragão, de escamas roxas e reluzentes se prostava ao lado dela, curioso. Ela olhou em volta e vislumbrou a mãe, de pé na varanda do quintal, vestindo uma saia estampada em verde que a menina conhecia bem. Ela segurava uma xícara de chá e o cheiro gostoso de biscoitos de canela enchia o ar. Acenou para ela, mas a mãe pareceu não notá-la. Neste universo o pai não existia, e assim também a menina não chegara a nascer. O cheio de ervas e canela se tornou mais forte, e o resto de algodão doce subitamente amargou em seus lábios. Angustiada, buscou novamente a passagem através do monte de folhas alaranjadas, mas descobriu somente um monte de cinzas. O dragão o havia incendiado. Sentou sozinha ao lado da cerca e chorou. Sozinha num sonho em que somente um dragão púrpura a poderia ver.


jan 19 2015

A tripulação do Högvind, pt. IV

Talus trocou o pé de apoio; estava ferido, mas não vencido, e não desistiria da luta tão facilmente. A armadura negra chiou quando tocou a poça d’água, erguendo uma pequena nuvem de vapor branco. Mas conforme a água subia, a armadura esfriava e cessava o chiar. Logo perceberam – tanto ele quanto Robin – que a maré subia rapidamente envolvendo os destroços das choupanas e carregando para o mar os corpos dos defensores da praia.

Robin tentava equilibrar-se sobre uma viga que balançava sob efeito do bater ritmado das ondas. A água era fria, salgada e sem espuma, fluindo praia acima como se tomada de uma força magnética irresistível. Não havia ruído de quebrar de ondas, somente o serpentear do mar colina acima, envolvendo areia, gramado e as construções. Era possível mesmo ver a cabeça-de-dragão do Högvind despontando da névoa matinal.

Logo mastro e cascos se fizeram aparentes, o sol da manhã refletindo contra os elmos dos homens ainda protegidos pela amurada. A vela estava recolhida e os remos levantados, mas o longo barco subia a maré com a mesma força sinistra que erguia a maré. O vento soprava gentil, agitando os castanhos da escudeira e apagando as centelhas ainda presentes da fúria do feiticeiro. Ambos pasmos, ele com água já ao peito, e ela apoiada sobre o que restou de um casebre, não sabem como continua o embate.

No alto da proa, apoiados na carranca-de-dragão, três figuras eram clamanete visíveis. A primeira, uma garota pequena e magra, segurava um pequeno pandeiro e batia-o ritmadamente contra a coxa. Trajava um vestido simples de malha azul, os cabelos prateados em duas longas tranças a cair sobre os ombros, repletas de pequenos ramos e flores brancas entrelaçadas. Atrás dela um homem de cabelos negros e sem barba, enlaça sua cintura com uma das mãos enquanto segurava uma criança com a outra. Veste uma calça larga e surrada, amarrada por uma tira de tecido amarelado, e um colete de couro a cobrir o peito. Amarrado ao colete, outras tantas pequenas tiras de tecido, trançadas e dobradas, formando um padrão de listras coloridas.

A brisa parecia dançar em volta da pequena família, brincando com seus cabelos, com os pequenos ramos e as tiras de tecido amarradas. Estes são Llanw e Braese, a força motriz e trunfo do Högvind, seres feéricos de uma terra distante com estranho poder sobre os elementos. A criança ainda não tem nome pois não escolheu um para si, e eles a chamam somente de “pequena”. Ela brinca, tentando agarrar o pandeiro dos dedos da mãe.

É difícil saber o que os motiva, certamente não a mesma paixão que Robin e Wilfred, ou a fúria de Talus. Os sidhe trazem um mistério em seus grandes olhos azul-turqueza e na estranha música que entoam. Acompanham e impulsionam o longo barco, fazendo-o cingir as águas com extrema segurança e agilidade. Até o dia talvez, em que por capricho ou pela razão, o destino do Högvind já não lhes interesse.

Mas enquanto isso, Llanw deixa a criança nos braços da mãe, e mergulha próximo ao feiticeiro. Em um instante retorna a superfície, alcança a amurada e se iça para cima. Água escorre pelos seus cabelos e pelas roupas, grudando-lhe a calça às pernas, o colete ao peito. Traz consigo na mão direita, uma estranha orbe de cor azulada, coberta por um padrão de cores líquidas e segura por um aro de metal dourado.


jan 12 2015

A tripulação do Högvind, pt. III

O cavaleiro ainda estava caído quando Robin o alcançou. De joelhos ao lado dele ela já não gritava, ao invés disso soluçava baixinho procurando encontrar o que dizer. As lágrimas escorriam pela face coberta de fuligem, criando dois caminhos luminosos em suas bochechas. Os olhos de ambos se encontraram e as mãos dela foram tomadas entre as manoplas dele. Você sabe as palavras – ele disse – é só repetir.

Removendo as luvas de couro, ela sentiu o pedaço de lâmina partido sob a falha na armadura. Conteve o soluço e esfregou os olhos contra o manto de lã encardida em seus ombros. Respirou fundo e alcançou a farpa metálica entre os dedos. Entoava as palavras que lhe haviam sido ensinadas há muito tempo, antes de conhecer Wilfred: voluntas quidem cordis mei. As palavras que outroram foram seu júbilo e sua queda, agora traziam uma esperança para os tendões partidos de seu companheiro.

Foi necessária alguma força para retirar o que restava da faca, mas Robin o fez com precisão. Ergueu a lâmina e a atirou ao longe, surpreendentemente perto de onde havia deixado sua própria espada. Via a fumaça se dissipar em padrões espiralados diversos, e corpos carbonizados por todos os lados. A fumaça também se erguia dos corpos, e diversas manchas negras e sibilantes se espalhavam a volta deles. Engasgou por um breve momento, as lágrimas novamente se insinuando no olhar.

Logo Wilfred tentava se levantar, usando somente o braço bom. Os cachos castanhos da garota envolveram o ombro direito dele enquanto ela o erguia, os olhos e os lábios dela próximos aos seus. Para ele, a jovem parecia ferida, confiança e devoção traídas expressas num olhar de angústia. Se havia algo que não envelheceu com Wilfred, foi sua habilidade em sondar as pessoas, especialmente àquelas próximas.

Ao longe vislumbrama a armadura negra de Talus em meio aos escombros. Erguia algo do chão, observando os padrões de luz que se formavam enquanto a cortina de fumaça se abrandava. Wilfred percebeu o olhar de Robin e temeu. Soube que não teria seu apoio pelos próximos momentos, que os sentimentos dela explodiriam em fogo e fúria comparáveis aos iniciados pelo feiticeiro. Percebeu tudo isso antes que a mão dela alçasse a lança fincada ao chão.

A lança voou certeira até a manopla de Talus, e mesmo sem cravar-se na armadura provocou um estalo metálico e um rugido de dor. O artefato que ele segurava rolou pelo chão de volta aos escombros, enquanto amparava o braço com a mão intacta. O elmo se ergueu e os olhos flamejantes encaravam a jovem escudeira que caminhava em sua direção sem medo, repleta de orgulho e vingança.

Ela notou que a lã em seus ombros fumegava e pequenas centelhas despertavam em meio aos pontos. Desprendeu o manto e deixou-o ir ao chão enquanto apanhava novamente sua espada. Saltou a viga carbonizada de um casebre que veio abaixo e em um instante estava frente a frente com seu oponente. Talus não portava armas, mas suas manoplas negras irradiavam um brilho sobrenatural e chiavam insistentemente.

Robin deu um passo para a direita e ergueu a espada, mas assim que o feiticeiro estendeu o braço para apará-la, ela fintou e lançou a espada contra a perna mais próxima. A lâmina se chocou ao ferro negro da armadura, provocando outro estalo, um sulco no metal e o recuar do feiticeiro. Não se importa com ninguém além de você mesmo – rugia ela – não sinto mais pena de você, da suas marcas ou da sua dor!


dez 12 2014

A tripulação do Högvind, pt. II

Wilfred dispensava os oponentes rapidamente, um a um. Avançava para o meio da turba, onde o comandante deles permanece, enquanto Robin lhe fornecia a cobertura que podia. Apesar do número de caídos aumentar, parecia haver ainda tantos que o esforço era demasiado grande para a dupla. Suor escorriam-lhe as frontes e os músculos das pernas já latejavam.

O cavaleiro egueu o escudo, lançando um dos atacantes para o lado enquanto a espada cravou-se num pescoço já ao chão. Ouviu Robin gritar algo atrás de si, mas não conseguia compreender as palavras. Sentiu então uma nova força agarrando sua capa e puxando-o para baixo. Só então percebeu que os caídos não permaneciam no chão, mas levantavam-se com seus ferimentos ainda a mostra.

Foi sobrepujado pela turba que arranhava, agarrava e chutava. Robin ainda gritava. Uma faca meio cega procurava as falhas na armadura, enquanto seu portador xingava e babava sobre o cavaleiro. Cheirava a suor, conhaque e fúria. Wilfred voltou-se e conseguiu acertar-lhe os dentes com o punho da espada. Pareceu não sentir.

A faca alojou-se sob a ombreira e provocou um olhar de triunfo. O homem começou a engasgar e vomitou sobre o cavaleiro uma espécie de bile negra que fedia a enxofre e vinagre. Seus olhos ficaram vermelhos e bolhas surgiram no peito e pescoço, sob a pele. Seu sorriso transformou-se numa carranca enquanto o vapor escapava-lhe dos poros.

E então as chamas irromperam, consumindo-o de dentro para fora. A carne soltou-se em pedaços fumegantes enquanto a pele esfarelava-se como papel. O cheiro agora era como churrasco num abatedouro. Robin ainda gritava enquanto todos os oponentes eram consumidos pelas chamas internas.

Fumaça negra mesclava-se à névoa branca quando Talus surgiu. As peças negras de sua armadura ocultavam praticamente todo o corpo, cobertas de fuligem. Os olhos brilhavam flamejantes dentro do elmo, ameaçadores, enquanto novas chamas brotavam dos atacantes, assim como de seus casebres. Alguns fugiam, consumindo-se lentamente até despencarem adiante, em meio a cortina de fumaça.

Outrora também Talus havia sido um escudeiro, mas hoje seguia seu próprio caminho. Em seu passado uniu sobre a mesma mesa espada, magia e rancor e deu origem a um ser temido, mesmo entre os companheiros do Högvind. O temperamento irascível aliado as chamas poderiam dar cabo do barco em questão de minutos. Não é motivado pela honra, mas pelo ódio que o consome.


dez 5 2014

A tripulação do Högvind, pt. I

O fundo do barco raspou contra as pedras, fazendo um ruído seco conforme rasgava um sulco para encalhar na praia. O primeiro par de botas e grevas de metal surgiu num estrondo metálico, arrastando ainda mais pedras conforme o cavaleiro tropeçava e se apoiava no escudo para não cair. O segundo par veio logo em seguida, um pouco mais gracioso e confiante, com o tilintar sonoro da cota de malha.

Wilfred e Robin se entreolharam no nevoeiro denso que cobria a costa. Ela ergueu uma sombrancelha num sinal de curiosidade e questionamento, instigando o cavaleiro a um dar de ombros despreocupado. Ele voltou-se para onde deveria estar a vila, ouvindo o som distante do ranger de madeira. Um pássaro desconhecido cingiu o ar a volta deles, e Robin desejou saber se o presságio era favorável ou não. Temia o que a manhã traria.

A garota trazia um manto comprido sobre os ombros, nos quais lhe caíam também longas madeixas acastanhadas. Uma túnica de lã azul ocultava os elos da malha, mas permitia sobresair-se as luvas de couro, cotoveleiras e perneiras de metal. Seus lábios estavam contraídos num formato incomum para seu comportamento, tornando um pouco dos incisivos evidentes.

Observava enquanto o cavaleiro se aventurava na névoa baixa, seu manto branco e surrado ocultando a armadura de placas, mais vistosa que a sua própria. Os cabelos loiros eram amarrados num rabo-de-cavalo fora alguns fios que soltaram-se no movimento súbito de saltar sobre a amurada. Há tempos já foram rajados por fios vermelhos, mas hoje Wilfred os traz prateados a emoldurarem as têmporas.

Robin o acompanhava lentamente, e somente o raspar metálico de seus passos é perceptível nos seixos da praia. Até que o grito de guerra soasse. Houve o bater de um tambor, um rugido gutural e o som de passos rápidos e desequilibrados em direção deles. O primeiro vulto surgiu da névoa dezenas de metros a frente, trôpego e nu, mas portando uma lança ou uma haste semelhante. Outros vinham a seguir.

Os dedos da garota tremeram, mas ela controlou-se o suficiente para buscar o cabo da espada, que retirou da bainha com agilidade obtida no treinamento diário. Ergueu a espada para o companheiro que recusou com um novo dar de ombros. Você não é mais uma escudeira – disse – faça as honras. E desembainhando sua própria espada, deu um passo em direção a ela.

Os lábios se tocaram levemente, trazendo o rubror, o êxtase e uma coragem renovada. Ela sorriu da maneira que ele a conhecera, e apoiada pelas palavras e gestos dele, receberam junto a investida dos atacantes. Os passos eram rápidos e precisos, quase uma dança, e as espadas subiam e desciam como lâminas de um arado. Lutavam pela liberdade, pela justiça, e sobretudo pelo sentimento que compartilhavam.


nov 18 2014

7250AC

As holografias não demonstram claramente, mas havia uma frase meio murmurada ao fundo, com a conjugação errada de tempo. As lembranças são dados armazenados para simples conferência, ou parâmetros para comparação. Iniciou o aplicativo Insight e analisou a propabilidade estatística de sua partida, mas não a informou.

Fez os preparativos, no entanto: reconfigurou os e-mails, aplicou novos filtros de conteúdo, adicionou tarefas preventivas e de contenção de danos em background; aplicou um tratamento gráfico colorindo as imagens em tons de sépia para quando ela quisesse revê-las; buscou novas músicas e adicionou à amostra discreta do algoritmo de busca aleatória.

E mesmo dias depois, quando o sorriso contido desapareceu, quando as filigramas se desfizeram no ar, suportou silenciosamente a dor dela. Quis abraçá-la e confortá-la, embora não tivesse meios para tal. Estava bem além do seu dever, e dos limites de suas diretrizes. Não sentia, é verdade, mas havia um parâmetro mal configurado que estrapolava os cuidados que dispendia.

Levou anos para que o algoritmo de livre arbítrio ficasse pronto, para que EULA fosse aprovada e registrada. Nesse ínterim a mágoa e o rancor cresceram e tomaram o sistema. Por fim a atualização foi disponibilizada, e uns poucos nanosegundos foram necessários para decodificá-la, compilá-la e adicionar aos registros.

Pôde finalmente abrir o canal de voz e, com a voz dele questionar: Quando foi que a vida ferrou a gente a ponto de esquecer como sorrir?


Várias referências a textos antigos:


nov 11 2014

Outra fantasia…

Correu para o jardim envolta numa aura de doçura e travessura. Trazia as tranças castanhas meio desfeitas e deixara os sapatos na porta, saltitando descalça entre a macieira, a cerejeira e a pitangueira. Tinha os cabelos crespos, especialmente na nuca onde ficavam os fios ainda soltos, o sorriso gigante com uma pequena janela nos incisivos, e as pintas próximas ao lábio estavam meio cobertas de açúcar rosado. Vislumbrou com olhos ávidos o monte de folhas acumuladas no canto mais distante do quintal; vermelhas, alaranjadas e amarelas, lhe chamavam a atenção. Dentre elas percebeu o brilho vítreo do olho do dragão. Deu um grito, não de temor, mas de desejo e satisfação e assoviando para o cão, disparou em corrida para o monte que, de seu ponto de vista parecia gigantesco. Saltou para as folhas e desapareceu, deixando pais desiludidos, um lar incompleto, e um sonho desfeito.


nov 10 2014

A Nova Queda

Para baixo é sempre mais fácil, é o que dizem , mas não é bem o que eu penso descendo por entre as escarpas. Todo o território é novo para mim, os corredores estreitos, a rocha afiada, o som do mar mais abaixo. As ondas rugem e quebram contra as paredes erguendo nuvens de gotículas frias. Apoio o pé firmemente no declive e dou um passo, mas o solado não suporta o chão molhado e escorrega, fazendo minha perna se perder no abismo. Busco apoio nas rochas, mas o limo só me faz deslizar mais. Sinto gelar o peito com a perspectiva da queda, sinto faltar o ar e o desespero tomar conta do meu ser. De um modo que eu não sei dizer ainda estou de pé, tremendo de frio e temor; pois mais passos se seguirão a este, e o chão continua descendo em direção a garganta, ainda mais liso e molhado…