ago 25 2010

Percurso

Percorro as ruas de calçadas fragmentadas entre as quais cresce a erva daninha. Apesar do que o nome sugere, a planta não é verde, ao invés tão cinzenta quanto a calçada. Cinzento também o asfalto, os muros e os panfletos neles colados.

Grisalhos e opacos os cabelos e os olhares dos transeuntes, alheios ao germinar da erva e das árvores cinzentas. Nem mesmo o gato que atravessa a estrada em disparada é completamente negro.

Ao subir a ladeira me deparo com o único ponto colorido em meu universo: os céus, acima dos edifícios e telhados exprime uma suave cor púrpura que se mescla ao horizonte banhado pela suave radiância de nossa lua argêntea.


jul 30 2010

Rascunho

em 16 de março de 2010, às 22:53 por Véxo

Em meio as névoas farejei meus fantasmas. Caminhavam mãos dadas sem perceberem minha presença, e eu lentamente os segui. O branco leitoso encobria a visão ou talvez os próprios fantasmas, alvos na névoa tornaram-se invisíveis. Mas ainda podia farejá-los. Ao menos assim o pensava.

Poucos metros tinha adentrado quando também o odor dissipou-se. Erguendo as narinas busquei um resquício de sua presença e não encontrei. Fora ludibriado, para a…

[ inacabado ]


fev 22 2010

O Grito Silencioso

Algumas vezes surge no meu peito um grito que eu mantenho abafado. É um grasnado gutural, › Continue lendo


fev 17 2010

Os Últimos Cinzentos

Finalmente os dias cinzentos. Trazem consigo manchas negras aos meus olhos e fios opacos aos meus cabelos. A maturidade desperta a certeza de que o caminho há muito foi traçado, que a trama há muito foi tecida.

Muitas vezes a vida é limitada e sobram poucos mistérios além da morte. Os dias em que a luz fluiu radiante entre as nuvens ficaram para trás. Sinto o tempo em minhas veias, e já não posso mais correr tão rápido ou me erguer tão alto quanto outrora.

Em meus dias de orgulho, as fiandeiras julgaram-me criminoso e mentiroso, e assim declarado exigiram-me promessas e arrependimento. Promessas que devo manter, e pouco possa fazer em contrário. Apesar disto não haverá redenção ou reabilitação, nenhum caminho novo a seguir.

Como as nornas não percebem o que está errado? Como podem estar cegas à guerra sendo travada, às batalhas que me acompanham diariamente. Fecho meus olhos e imagino as glórias que não voltarão, os últimos raios de luz destacando as formas ao entardecer.


jul 9 2009

I’m losing

inspirado em Cardigans’ – My Favorite Game

Pegou o carro, o mustang velho de guerra com a lataria carcomida pela ferrugem e uma única calota restante. Acelerou; tanto quanto podia. Poeira e pequenas pedras do asfalto voavam para trás, para o passado. Á frente somente o negro do asfalto, o vermelho do deserto e o horizonte azulado.

Chegaria a tempo? Chegaria inteiro? Chegaria..?

Seu jogo favorito era lutar contra o tempo, contra as expectativas contrárias. Mas perdia. Sabia que lutava, perdia, e gostava. Um clube da luta, que nada, tornou-se membro exclusivo de um clube para os caídos. Mas agora, caindo ao horizonte só havia uma direção a tomar.

Para frente, para o horizonte. Para ela?

Conforme o sol descia ao horizonte e o azul se tornava negro, viu as lágrimas dela pontilhando o céu. O ponteiro do velocímetro continuava no máximo, mas o de combustível reduzia lentamente. Uma a uma apareciam em sua negra tez. Quis tocá-la, mas sua velocidade não era suficiente.

Ele nunca foi o suficiente para ela.

Manteve o pé firme no acelerador quando ela surgiu, de faróis altos e ofuscantes. Vinha do horizonte tão rapidamente que ele mal pôde abrir os braços para recebê-la. Ela o arrematou e jogou ao ar. Parecia voar, finalmente para os braços da Noite.


jun 4 2009

É junho e faz frio…

É junho e faz frio, finalmente o frio. Tive saudades e temi que ele não viesse outra vez, mas cumpriu o prometido.
Ano sim, ano não, me faz tirar do armário o sobretudo, minha segunda pele e sentir novamente prazer em caminhar pela noite.

A lua, meio encoberta pelas nuvens (ou seria névoa?) me observa curiosa, atenta. Sua luz argêntea não chega a tocar-me na escuridão. Pertenço a ela, creio. E ao frio, e me criaram como pai e mãe pouco zelosos, arremessando-me para o seio da vida. Dolorosa e doce vida.

Filha da escuridão também a morte. Minha irmã, minha cara-metade, anseio dos meus dias, fonte do meu desejo. Se esgueira pela noite e foge, correndo por vielas que não aquelas que freqüento. Certo dia ainda a encontro, ou me encontra, não sei ao certo.

Enquanto isso a noite avança vagarosamente, cobrindo de lágrimas brilhantes o negrume da escuridão e trazendo o toque do pai para junto de meu peito. Dedos como adagas, sopro como o hálito de um dragão; sua voz me perturba e atordoa. Pai.

Renasço do frio….


fev 12 2009

Resgate

Foi numa noite fria de início de inverno que senti sua presença novamente. Pouco a pouco, surgindo dentre as sombras ela tocou meu ombro e se aninhou a ele, respousando os cabelos junto ao meu rosto. Junto a ela, uma suave radiância aqueceu-me, desfazendo todo a frigidez da noite que iniciava.

Vinha trajada para o combate, espada junto a bainha e coração disposto. O prêmio não era alto, tampouco íntegro, mas ela o desejava com coragem jamais igualada. Eu havia erguido defesas cruéis, ferrões e couraça em defesa de meu peito ferido.

Aproximei-me do abismo cambaleante, evitando que minhas farpas a sangrassem; mas ela se agarrou a mim, um espinho perfurando-lhe o peito. As palavras faltaram-nos enquanto caíamos sob as estrelas e antes que eu pudesse chegar ao chão ela se interpôs e me resgatou num beijo.

Luar acima e campos abaixo; os elísios carregaram nossas almas ao longe, num vôo impossível de ser detido.


jan 7 2009

Sobre a Paz e como se portar para obtê-la

A idéia de que um ano novo, roupas brancas e água salgada possam trazer paz é ilusória; tão ilusória quanto a própria idéia que se te da Paz. Todos a querem, almejam e alguns chegam mesmo a caçá-la, mal sabendo que esta é a atitude repugnada pela nobre dama.
Pouco mais se pode fazer com a paz do que ceder-lhe um lugar e esperar que, como um felino doméstico, ela ali venha a habitar; servir-lhe leite e biscoitos e esperar que como os duendes benéficos despeje ali suas graças.
A melhor maneira de obter a paz, imagino, não seja com festas e algazarra; mas sim, forjar grilhões dourados e brilhantes que a mantenham presa sem que assim o saiba. E ainda assim, ela ficará somente temporariamente, até que encontre uma maneira de escapar a sua preciosa prisão.
Ela não guarda rancores no entanto, e voltará em momentos ocasionais, e não-festivos, esgueirando-se por entre os móveis e tomando o pequenino espaço que lhe dedicaram como se fosse seu próprio lar.


set 5 2008

Livre Enfim

Não estava atento quando Victória surgiu. Passou por ele como se não o reconhecesse e carregou seu sorriso na sacola de compras dela. Havia pães, leite e alguns indispensáveis femininos além do chocolate que levava nas mãos.

Sorria, imagino, sem saber o que ele planejava. Há tempos esperava a oportunidade e estava pronto para ela. Ergueu-se e, ajeitando-me o paletó, a seguiu. Não era longo o caminho até o prédio que morava, mas ele fez o possível para parecer discreto as pessoas que estavam na rua.
Quando soltou a porta do prédio, ele a segurou para que não fechasse. Ela não o viu ou ouviu. Estava com os fones de ouvido. Tinha os olhos fixos em seus cabelos e em seus passos. Obsessão.
A porta de seu apartamento parou. Não sabia como prosseguir, mas revelou lentamente a peça fria de metal em seu bolso interno. Cabeça baixa contra o batente, ouvindo os pequenos ruídos que vinham do cômodo, a sacola deixada sobre a mesa, o fone de ouvido sobre almofada ou sofá, o primeiro alô.
Tremeu ao ouvir sua voz, o peito se fez em farpas de gelo. E então a discussão começou. Não sabia o por quê, mas ouvia claramente os gritos e o choro. O outro falou que daria uma volta, para pensar. Ao tocar a maçaneta a porta voou a seu encontro.
Entrou com o revólver em mãos, queimando-lhe as entranhas. O outro estava cambaleando junto a parede. Atirou. A camiseta encharcou-se de sangue junto ao umbigo; ela gritava.
Voltou-se para ela, a vista borrada, a garganta seca. Ela olhava descrente, por indignação ou surpresa? Novamente olhou para o outro que segurava o ventre com as mãos, agonizando. Disparou novamente, mas errou o alvo e acertou-lhe a perna.
Num ato heróico a garota jogou-se contra ele e contra a porta, afastando-o de seu noivo. Os corpos estavam próximos novamente, os olhos fixos e ele pode ver nela o sentimento que os afastou. Raiva.
Sendo mais alto e mais forte, encurralou-a na parede, mas ela puxou o revólver contra si e colocou-o a altura do peito. Só um tiro – falou entre soluços. Ele ergueu a arma temeroso, jamais sentindo tamanho vazio e temor. Passou-o por entre seus cachos e junto ao seu lábio e então apontou para a boca aberta.
A grande luz o cobriu pouco depois que seu sangue e outros pedaços cobrissem a porta e o teto junto a entrada.

ago 4 2008

Agosto

Agosto amanhece, e o faz com nuvens cinzetas, uma brisa gelada e uma lua ausente; do jeito eu esperava, do modo que me lembrava.

A fogueira já está apagada quando desperto, e deixar o conforto das cobertas é um desafio, mas eu acabo por me colocar de pé. Enquanto recolho meus pertences para partir, ouço o som da chuva que se aproxima do leste.
Corro para uma árvore, e jogo o capuz sobre minha cabeça, mas a tormenta que chega não traz água alguma. O som se torna mais forte, ruidoso, e repleto de guinados enquato a sombra dos corvos preenche o acampamento.
Em poucos instantes eles desaparecem, voando em direção ao poente, deixando-me só a ponderar sobre a aura sinistra do novo mês, uma época de desgosto, repleta de ventos frios e do soluço dos pássaros.