ago 28 2014

Barreiras

A Inocência me foi velada por lentes escuras; mas estava lá. Me observava com curiosidade, e delicada atenção. E parecia que a Suavidade escorria por entre suas ondas negras em filigranas delicadas.

Uma sombra do passado ao fundo, me observava com igual intensidade. Pouco posso lhe distinguir, mas além de curiosidade e atenção lhe sobressai uma desconfiança austera e cuidado para com os castanhos ocultos.

E na manhã que se segue, abandono a Esperança igualmente velada, ultrapasso-a a passos largos embora temerosos. Ela não me detém, mas imagino se não me observa com expectativas renovadas.

As barreiras que nos impomos nos separam, tanto aquelas físicas e negras, as distâncias geográficas, mas principalmente as vontades de nossas mentes e rigores de nossas almas.


jul 29 2014

A voz do Anjo

Ajoelhado contra a pedra fria sentia as articulações doloridas e latejando. Tinha as mãos amarradas ás costas, estando vendado mas não amordaçado. Por que a dor? Podia sentir a textura áspera do cânhamo a roer-lhe os pulsos e tornozelos, abrasando a pele e torcendo-lhe os músculos.

O algoz ainda trabalhava, com gestos precisos e rápidos ao imobilizá-lo. Não falava, mas murmurrava constantemente, em um matraquear inconstante e incompreensível. Ouviu o sussurrar? Sua voz ou o farfalhar de suas vestes? Parecia estar nu. Por vezes parecia cantar, absorto em seu trabalho cruel.

Em pouco tempo finalizou o labor e levantando-se, deu as costas a seu prisioneiro. O silêncio e a escuridão tomaram seu lugar novamente. Sentindo-se só, apressou por reconhecer o território a seu redor. Tentou caminhar utilizando os joelhos, mas os tornozelos o traíram. Seus reflexos, ao contrário, reagiram de imediato ao girar o corpo enquanto caía. Aterrizou de modo violento com o ombro sobre um pedaço de madeira, sentindo o estralar dos ossos. Em pouco tempo a dor alastrou-se pelo braço incendiando a carne.

Travou os dentes para não gritar, e sentiu a umidade quente das lágrimas correndo-lhe sobre a fronte. Traçavam caminhos por sobre o rosto coberto de poeira, juntando-se ao escarro que esvaia das narinas. Preciso levantar, preciso lutar! Resgatou as forças para se erguer, e forçou uma, duas, três vezes. A cada novo esforço a dor se tornava mais insuportável. O pedaço de madeira rolou por sob seu corpo, alojando-se em um canto do lugar, inacessível aos seus empenhos.

Tinha dificuldade em respirar e os gemidos já lhe brotavam livres da garganta. Perdeu a consciência e a noção de tempo por um instante. Ou talvez mais do que isto. Lembrou – ou sonhou – com a noite anterior quando acampava no exílio. Quando foi isso? Há nove noites ou mais que estava distante de todos.

Em um determinado momento sentiu algo gélido e lhano roçar-lhe as costas. Esperança? Arrastou-se um pouco mais de modo a poder alcançar-lhe entre as mãos. O pedaço deslizou por entre os dedos arrancando um naco de pele e carne, fazendo o sangue escorrer livre em sua palma. A cruel lâmina da Esperança!

A nova ardência o trouxe de volta, disparando uma carga de adrenalina pela corrente sanguínea. Agarrou com firmeza ao metal e ao pouco que restava do cabo da lança e pressionou-o contra as cordas firmes. O metal cortava igualmente cânhamo e pele, dilacerando ainda mais os pulsos machucados. Passaram-se minutos, aos quais ficava próximo, cada vez mais próximo a sua liberdade. Finalmente o trançar da corda cedeu com um estalo, desvencilhando-o de vez.

Apoiado nas mãos, pôs-se de joelhos novamente e trouxe as mãos ao rosto a fim de retirar a venda. Pôde ver o rubor do sangue em suas mãos, mas foi tudo que lhe foi permitido, pois um golpe certeiro contra o peito o lançou de volta ao chão. Sentiu o ombro latejar novamente e antes que pudesse se recuperar o algoz estava sobre seu peito, segurando-lhe contra a pedra fria, com a cabeça de lança a cutucar-lhe as costas. Como ele havia entrado tão silenciosamente no lugar? Estava ali observando-o todo este tempo? Debateu-se em vão enquanto o outro alcançava a lâmina e posicionava-a contra seu pescoço.

Ouviu seus lábios aproximaram-lhe do ouvido, o hálito úmido e a voz entrecortada a sussurrar algo que não pôde discernir. Ansiava desesperadamente saber o por quê. Ao invés, foi presenteado pelo aço frio a vencer a pele e percorrer carne e cartilagem, abrindo-lhe em duas a traqueia. Gritou talvez, pela última vez.


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jul 13 2014

Última noite em Paris

Uma última noite antes do amanhecer. Paris é muito mais singela no inverno, mas em Julho o luar me lembra você. Caminho pelas ruas desertas, atravesso sarjetas cobertas de bitucas, tubulações esfumaçadas na noite de verão estrelado.

Não vejo você. Há mais de uma semana que você se foi e isto não me parece mais errado. Ainda uso o mesmo sobretudo e tenho no bolso o recibo da loja de flores. Mas não há mais o perfume das rosas ou o seu. Só a fumaça de uma Paris madrugando.

Apesar disto, ainda sinto a dor. A sua. Antes das luzes do amanhecer o silêncio impera, e nele eu percebo porque a minha não permaneceu. Partiu com você. Como se tivéssemos trocado de malas e fossemos destinados a carregar as mágoas do outro.

Ainda narro meus passos e meus pensamentos como se registrando, num diário, numa fita, uma cena de filme noir de baixa qualidade. Vejo a nós dois como personagens de um drama, de uma trama européia com aqueles finais indefinidos.

Meu vôo é em algumas horas, e eu ainda vago sem rumo. Meus últimos momentos em Paris, sob um céu estrelado e uma lua parcialmente encoberta. Noutra noite de Julho que não a nossa.


jul 12 2014

Visitando a Imperatriz

Antes que meus dias venham, decidi visitar minha musa, a Imperatriz. Andei a sua sombra e escutei paciente os acordes da sinfonia de seu caminhar. Seus olhos estavam velados, distantes aos meus, alheia a transformação a que me exige. Mal sabe ela que é seu o fruto encrustrado em meu âmago, colado precariamente com sangue e bile. E este fruto, esta seta maldita e peçonhenta faz de mim um monstro. Cria de sua criatura.


set 2 2013

Vítimas da Inocência

Há uma sensação difícil de explicar, na percepção da passagem de tempo. Ela me é ocasionada ao perceber que a Inocência já não é a mesma. Não que tenha perdido a graça em seu sorriso, ou a familiaridade de seu olhar. Mas de certo modo ela amadureceu. Tornou-se senhora de seu destino como outras princesas outrora.

Há uma certeza em Ivória, de que as princesas se tornam damas, que galgam seus medos e os superam. E quando você menos espera é salvo – ou destruído – por sua determinação e beleza. Isto só me fortalece a sensação, ao perceber que hoje a Inocência também destrói os corações incautos, dos bravos e destemidos.

Como também eu fui destruído um dia…


out 23 2012

Mau Agouro

Previa o futuro. Não como as senhoras que lhe pedem para ler as linhas da mão ou aqueles que atiram runas numa tigela de barro cru. Previa o futuro nas relações com as pessoas.

Certo dia brigou com o pai. Discutiram e por fim se abraçaram, mas ele sabia – mesmo sem saber – que no dia seguinte algo se partiria. E teve medo. Noutra ocasião percebeu a conjugação errada de tempo numa frase e previu embora incrédulo, que ela iria embora.

Alguns diziam intuição, ou mesmo um receio dele mesmo em comprometer-se. Mas para ele os agouros estavam presentes em cada pequeno gesto ou palavra dita com naturalidade. Bastava saber interpretá-los. E eles nunca falharam.

Apesar disto, sabia que o futuro não é imutável, e que outros gestos ou ações poderiam mudá-lo ou distorcê-lo. Lembra-se ainda do dia que previu sua morte, de quando e como ela aconteceria.

Mas este dia veio e passou, e ele se pergunta o que fez de errado para mudar o agouro previsto…


ago 28 2012

Altpapier

Me sinto como que de papel, como aquela nota amarelada na qual rabiscou suas últimas palavras, abandonada sobre a mesa da cozinha. Marcada pelo tempo, o manuseio e a esferográfica.

Sinto como se as lágrimas que a saudaram tivessem inundado minha’lma, afogando quaisquer sentimentos outrora presentes. Permanecem lá, suspensos indefinidamente próximo ao fundo. Num lugar em que não há fôlego para chegar.

Como o canto da página, o fim da linha, a áspera raspa de lápis ou a marca do mata-borrão. Embolorado e esquecido como as lembranças da escola.

A marca de batom já não é tão nítida quanto as palavras em tinta preta. “Adeus” é mais forte que as outras, resiste bravamente como se desafiando a integridade das fibras.

Num mundo onde tudo se manifesta radiante e oscilante, me percebo querido e abandonado como que uma folha de papel.


ago 1 2012

Após o sétimo Despertar

Anoiteceu mais uma vez, e ao acordar eu não percebi nada de diferente. O oitavo dia amanheceu frio, chuvoso e cinzento como todos os outros que o precederam.

Uma estranha familiaridade toma conta de meu ser. É completa com uma paz quase apática que me instiga a permanecer em meus sentidos. Em sentir, perceber que tudo permanece da maneira que fora deixado na noite anterior.

Ergo-me paciente e começo a recompor meu acampamento. Torno tudo ao interior da mochila, que alço as costas e faço o caminho de volta. Acredito que seja a volta, pois parece que nem mesmo eu sei onde fui parar.

A ponte que encontro no caminho está queimada e eu preciso fazer uma volta muito maior ao vadear o rio. Preciso refazer meus passos, visto que tuas marcas já se foram há tantos dias. Não é mais possível para mim seguir-te.

Eu penso no que de teu mantenho comigo ainda, e busco na mochila tua última recordação. Encontro somente o cordão e uma pequena alça de metal partida. E só então me dou conta do que está diferente.

A própria ausência da ausência. Meu juízo, minha sanidade toma aos poucos conta da minha percepção para revelar que já não há tortura, farpas e sangue. Só um espaço vazio, quem sabe a ser preenchido.

Noutro dia, talvez…


jul 31 2012

Nenhum Porto para Voltar

– As Crônicas de Arda por Sérion

A guerra terminou. A Pedra de Eärendil foi largada ao solo e sobre ela crescem heras onde outrora regaram-lhe lágrimas. E com isto, também a Estrela Vespertina se apagou, deixando a Terra-Média sem uma luz que guiasse o fim da tarde.

No oeste brilham novas luzes, mas muito longe e apagadas pelas névoas para que eu possa desvendar. Meus olhos já não vêem além da costa, mesmo quando do alto de nossos faróis me debruço.

Também os portos cinzentos apodrecem, pois ninguém mais toma a rota para o mar bravio. E assim permaneço eu, junto a costa de Belfalas, onde a paz se faz da melancolia da maré e meu leito do pesar.


jul 25 2012

O Monstro, pt. II

– Crônicas de Ethrü, em continuidade ao Monstro

Há certas noites que ainda penso no monstro. Não é um pesadelo, nem nada do gênero; eu só estou deitado no meu catre e deixo meus pensamentos vagarem pelas memórias da minha infância.

E é então que eu vislumbro aqueles olhos selvagens na escuridão. O verde doentio se volta rapidamente a mim, e sua respiração se condensa branca no ar. E eu corro. Mas ele me segue além de seu refúgio, e nos meus pensamentos finalmente me alcança.

Tomado de assalto, caio e rolo sobre a relva, ferindo meus joelhos nas rochas. Eu olho em volta e ele não está mais lá, mas ainda sinto sua respiração sobre mim, uma sensação como se estivesse a me observar de algum lugar oculto.

Mas essa é uma lembrança forjada. Onde quer que esteja, em seu refúgio sob a terra, o monstro permanece aquietado ou em torpor. E eu torço para que ele continue lá, ao menos por mais um dia…