fev 15 2011

O Corvo e o Lobo

Tive um pesadelo; nele o grande lobo era perseguido por um corvo que tinha em seus olhos a sabedoria de Odin. O lobo corria pela liberdade, mas a velocidade do pássaro suplantava seu vigor.

Em poucos instantes alcançou-o em um vôo rasante. Prendeu-se em seu pescoço com as garras afiadas e alçou a haste que brotava em seu peito. Em meu inconsciente o lobo tremeu pela sua liberdade. E revidou.

Abocanhou a asa da valquíria com rancor e ambos os animais se debateram em agonia. E então acordei suado, temendo o significado de minha visão…


fev 14 2011

Monstro Liberto

- Crônicas de Ethrü

Cacei-o por anos a fio; rastreei suas marcas e segui sua trilha de devastação até que um dia, sem menor aviso desapareceu. Não haviam mais pegadas pelos campos ou trilhas de sangue entre as árvores. Desapareceram os temores noturnos e as lendas deixaram de ser contadas a sussurros.

Soube então que outro caçador cruzara os campos de caça; empunhava a lança dos nórdicos e cavalgava um garanhão de pelagem branca; seus cabelos cinzentos eram emoldurados por asas de gaivotas. Uma mulher, uma valquíria. Levara o lobo dali e consigo minha liberdade presa ao peito do monstro.

Rumei para sua fortaleza e durante a noite tomei de assalto. Despindo-me da armadura e escudo saltei por sobre a muralha para o pátio interno. De imediato reconheci o ronco trovejante da criatura. Pé sobre pé rumei para ela com espada em punho movido pela ganância.

O prêmio deveria ser meu – pensei – e amaldiçoei a valquíria por tê-o tomado. Dividiria a caça com Jarl que depositara a maldição em seu peito, mas reclamaria para mim sua morte e faria de suas presas meu espólio.

Mas o monstro despertou com facilidade, como da vez anterior. A mesma astúcia e maleficência se denunciavam no rubor de seu olhar. Ergueu-se rapidamente mas foi detido por um pedaço de fita preso em seu pescoço. Ele testou o grilhão como deveria ter feito tantas vezes antes. Havia marcas de mordida na seda, mas nada fora capaz de destruí-la.

O braço esquerdo reclamou na presença da criatura e tive que consolar a espada em minha mão direita. Subi a lâmina sobre o tecido, rompendo-lhe as fibras tal qual rompia o destino traçado pelas Nornas. Por um momento pude ouvir as montanhas ruindo tão alto quanto o passo de um gato. Fazia parte de uma magia antiga, de deuses e anões e temi.

Temia pela fera agora liberta, que rapidamente saltou por sobre o portão e mais uma vez estava solta pelos campos. Distribuiria, sem distinção, fúria e selvageria sobre a terra, fazendo novos órfãos e viúvas. Mas apesar do meu pecado, teria de volta a esperança de liberdade, ou de morte.

- com base no Monstro Agrilhoado


fev 4 2011

Visitas Reais

Sonhei com a rainha. Ela conversava comigo e embora eu não possa lembrar as palavras havia reconciliação em seu olhar.

E durante a manhã fui visitado pelo rei. Seu olhar permanece reprovador e eu acredito que ainda me condene ao imaginar que eu ousei tomar seu trono.

Permanece também de porte altivo, austero e confiante. Mas eu vislumbro o peso que cai sobre seus ombros.
Há poucos dias percebi que mantém encontros secretos junto ao portão de seu palácio, onde a solidão vem ter consigo.

Eu o invejo, mesmo que a Suavidade tenha partido para longe e a Inocência lhe traga angústias e preocupações.


jan 28 2011

Sobre a necessidade da Guerra

O clamor da guerra surge no reino vizinho, na forma de colunas de fumaça e gritos de desespero.
Visto novamente malha e placas. Calço as botas, cubro-me com minha capa e selo meu cavalo.
Abro os portões e cavalgo para o oeste sob as chamas frias da manhã.
Avanço com aço em punho, deixando para trás toda cautela e bom senso.
Pois a batalha ferve em meu sangue, e é tudo o que preciso…

Meu anseio pela batalha é difícil de exprimir. Cinco linhas, poucos versos não são suficientes para absorver todo o rancor que é destilado em meu ser.


jan 26 2011

O Baluarte

Decidi-me por um novo bastião em minha já austera fortaleza. É certo que há muitas eras ela não experimenta incrementos ou fortificações e as muralhas gastas sofrem o peso das inúmeras batalhas que presenciou. Na face oeste, onde uma terrível cicatriz cobria-lhe de alto abaixo projetei a obra: unificar as muralhas noroeste e oeste por um único e rijo baluarte.

Despi-me primeiro da malha e as placas gastas nos ombros e braços. Em seguida calcei as luvas de construtor e uma longa manta para me proteger do frio noturno e, munido de um carro e pá fui atrás de novas pedras que pudessem compor meu baluarte. Encontrei-as poucas na vastidão, muitas grandes demais para que eu pudesse cortar ou mover. Não tive escolha a não ser recorrer a meus pais.

Tomei-lhes o mausoléu e derrubei. Pedra a pedra carreguei-o aos meus domínios. O carro suportou o flagelo com dificuldade, mas findou-me o trabalho meses depois, com eixos tortos e rodas partidas. Somente então removi as grades farpadas e pontas-de-lança que deixei a proteger a cicatriz. Começara então a edificação de meu projeto.

Fundei alicerces em madeira e pavimentei o espaço entre eles com as lages mais finas e seguras. Em seguida erigi a muralha externa, pedra acima de pedra. As maiores encontravam seus lugares abaixo e outras encaixavam-lhes por sobre, sobrando o mínimo de espaço entre elas. Seriam ainda calçadas por rochas menores e outros alicerces em madeira. Trabalhei durante as manhãs e noites, onde o clima era mais ameno, ainda coberto pela longa manta como a  ocultar-me do olhar reprovador das miríades celestes. Tomou-me outros meses. E o mesmo para a muralha interna.

Por fim, misturei a cal, pedras moídas e terra para fazer uma argamassa que pudesse resistir ao tempo. Adicionei cola de gordura de boi para unir melhor. Junto a isso uma infinidade de pedras pequenas extraídas das ruínas da fortaleza, pedaços de grades e espadas quebradas de batalhas passada e os ossos de meus antepassados.

É possível perceber as feições de uma pessoa em seus restos, é o que dizem. Mas olhando para os crânios vazios de minha mãe e meu pai antes de mergulha-lhos na massa eu não vi seus olhares atentos e as feições de reprovação, nem mesmo sorriso despretensioso e frequente dela. Apenas quem sabe, de um modo sutil, a altivez de meu pai. Não havia notado, até o momento, como ao aproximar-me de minha mãe me tornara parecido com ele.

Seu crânio afundou lentamente na mistura, empurrado e fraturado pela lâmina da pá. Por fim a massa preencheu e acentou o interior da muralha dupla. E finalmente concluído, meu recente baluarte de pedras cinzentas, lâminas partidas, pó e cinzas, ossos e ruínas.

Então reinei sobre meus pais, amparado e protegido por eles como nunca outrora.


dez 28 2010

Através da Névoa II

Sua forma materializava-se na prancha. Parecia uma peça de xadrez, onde que o vestido comprido e rodado emoldurava-lhe o corpo esguio e a pequena tiara criava um pequeno detalhe entre os seus cabelos. Estes estavam amarrados às costas, numa pequena trança protegida da neblina matinal.

Desceu a tábua com cuidado redobrado, sozinha. Somente ao descer ergueu a mão enluvada para que o jovem pajem a segurasse. E assim não permaneceu por muito. Ajeitou o longo vestido enquanto a luz dourada irradiava sobre as pequenas pérolas e rendas de seus bordados.

E então sorriu, com os olhos e os lábios. Sorriu para além da névoa e eu senti aquele frio que brota das entranhas, paralisa os brônquios e nos permite as reações mais inesperadas. Acossei-me contra a parede. O sorriso não seria para mim. Seria?

Ouvi-lhe os sapatos transcorrendo os ladrilhos portuários sem interrupção. Aproximei-me para olhar e ela passou por mim, um pouco mais baixa, um tanto mais altiva. Mas não olhou-me os olhos, ao contrário, manteve os olhos fixos e os lábios comprimidos e seguiu…


dez 24 2010

Através da Névoa

Levantou cedo, bem antes do sol nascer. Vestiu-se rapidamente, pegou um casaco pesado e saiu. Não havia alma viva que ele pudesse ver nas ruas. A névoa matinal tornava os muros e quintais formas indistintas num mundo borrado e imóvel. Não havia vento, mas sim o frio da madrugada.

O som das ondas contra as traves do píer foi o que denunciou seu destino. Uns poucos estivadores já estavam lá, lidando com amarras e ganchos de atracação. No alto de um poste, um lampião criava uma suave radiância dourada que revelou as faces duras e inexpressivas dos operários.

O tinir singular de um sino anunciava a embarcação que esperava. Tornava-se visível e concreta, carranca e mastros despontando da névoa. E ela viria a bordo, através da névoa e pela manhã, trazendo consigo a radiância dourada do leste que ele tanto aguardara. Ela viria…


out 8 2010

Inocência

Acompanhei a Inocência por breves períodos em minha vida. Quieta, surgia repentinamente, cruzava rapidamente meu caminho e se ia; ás vezes trocando uma ou duas palavras. Marcou meu ser, no entanto.

Inocência tem uma beleza vítrea, dificilmente compreendida. É frágil e inspira cuidados, uma observação silenciosa e distante. Os cabelos soltos acariciados pelo vento, um meio sorriso estampado em sua face e hoje um respeitável casaco branco. Beleza vítrea, distante.

Deixei a Inocência no alto de sua torre, envolta sob o abraço da noite e parti. Para não mais voltar. Trilho caminhos entre bosques escuros e vastidões a qual não ouse sua delicada consciência conceber.

Inocência permanece no alto de sua torre, envolta em vidro e proteção para que o mundo tenha a certeza de seu eterno sorriso.


ago 25 2010

Percurso

Percorro as ruas de calçadas fragmentadas entre as quais cresce a erva daninha. Apesar do que o nome sugere, a planta não é verde, ao invés tão cinzenta quanto a calçada. Cinzento também o asfalto, os muros e os panfletos neles colados.

Grisalhos e opacos os cabelos e os olhares dos transeuntes, alheios ao germinar da erva e das árvores cinzentas. Nem mesmo o gato que atravessa a estrada em disparada é completamente negro.

Ao subir a ladeira me deparo com o único ponto colorido em meu universo: os céus, acima dos edifícios e telhados exprime uma suave cor púrpura que se mescla ao horizonte banhado pela suave radiância de nossa lua argêntea.


jul 30 2010

Rascunho

em 16 de março de 2010, às 22:53 por Véxo

Em meio as névoas farejei meus fantasmas. Caminhavam mãos dadas sem perceberem minha presença, e eu lentamente os segui. O branco leitoso encobria a visão ou talvez os próprios fantasmas, alvos na névoa tornaram-se invisíveis. Mas ainda podia farejá-los. Ao menos assim o pensava.

Poucos metros tinha adentrado quando também o odor dissipou-se. Erguendo as narinas busquei um resquício de sua presença e não encontrei. Fora ludibriado, para a…

[ inacabado ]