out
3
2011
… ou empatia, e dentre minhas habilidades é das mais superestimada. Há um aspecto dela pouco notável, aquele que me faz perceber as palavras não ditas, secretamente desejadas.
- Não é bom nos vermos hoje…
O pior é que, tendo consciência destas e faltando a coragem ou a sinceridade em expressá-las, acabo por eu mesmo narrar, por desferir o golpe que me fere.
- Você não voltará mais…
Parece-me que ela – minha intuição – somente se manifesta quando sou desprezado (fato não tão raro) e as coisas parecem embaraçosas demais para que o meu trato social possa lidar.
- Eu sei, existe outra pessoa…
Apesar disto, transformo as palavras duras numa brincadeira sem sentido e termino dizendo que tudo permanece bem. Mas ao virar as costas, são meus olhos a encontrar do chão as lajotas.
- É, eu acho que acabou.
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mar
4
2011
Lembra quando nos vimos pela última vez?
Você me ofereceu um abraço e um beijo
e mesmo após longos anos sem nos falar
me convidou para beber contigo?
E eu todo ocupado respondi que gostaria,
mas não havia como, não tinha tempo.
“Talvez numa outra vez, talvez em junho”.
Mas junho nunca veio.
E você me olhou daquele jeito e eu percebi
que era o mesmo olhar que eu já conhecia.
E como se não quisesse que eu me fosse,
me abraçou.
É difícil pensar que iria acabar um dia,
e que aquele poderia ter sido nosso último café.
E me dói pensar que não terei outra chance
para abraçar você.
Eu deveria ter encontrado um tempo,
ter encontrado um jeito, ter parado de pensar.
Mas agora você se foi e aquela bebida é
muito tarde para aceitar.
Quantas vezes tentei corrigir meu erro,
e voltar àquele lugar, se você ainda estivesse lá
eu desejaria que não fosse tarde demais
para voltar.
Estes versos que eu tento escrever a meses são inspirados na partida de uma grande amiga minha em conjunto com a repetição quase incessante da música Cut Here, do the Cure.
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fev
17
2011
Lembro das gavinhas,
sombrias filiformas
que escorriam de seus cabelos
e germinavam nos seus olhos.
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fev
4
2011
Quem dera ó noite você aqui,
Quem dera a noite você prá mim.
O sol nunca mais o céu raiar,
em dourado não mais traçar.
Quem dera ó lua teu toque frio,
encontrar-me sobre a mesa ébrio
a sorver da mágoa lentamente
o sangue, tão amargo aguardente.
Rasga-me a garganta, de afasia,
furta-me os versos, minha poesia
e deixa-me a cair.
Para o seio cálido da noite
onde enfim me faço amante
até a aurora surgir.
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dez
17
2010
Uma florzinha pálida e sem cor,
pétalas descoloridas despencando,
um choro reprimido, coração acuado.
Tentam arrancá-la de seu lar,
romper seu elo com o mundo
e eu não sei como segurá-la.
Ela se aninha em meus braços
buscando a cumplicidade
que somente a amizade dispõe.
Nesta noite chora minha rainha,
e nenhuma estrela há de brilhar
quando até a poesia se cala.
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nov
23
2010
Em vigoroso movimento de grades e correntes
os portões cerram-se detrás de mim,
isolando-me em meu refúgio.
Poucos dias estive abrigado entre suas muralhas,
longe dos obuses e morteiros da guerra
travada nas vastidões adiante.
Vastidões que torno a recorrer em meu exílio,
uma terra árida, de ruínas cinzentas
que volto a chamar de lar.
Ó quão frias as noites em que solitário me cubro
almejando as estrelas que não vejo
além das cortinas das dores minhas.
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mai
17
2009
São eras que se passam, milênios enfim,
sucedem-se deixando um legado maior
que os monumentos em ruínas.
As histórias de um povo, contos de outrora,
são passados de pai a filho
como se meras recordações.
Mas são os fantasmas nas sombras,
a ouvir as histórias mais uma vez
que se regozijam pela lembrança.
Nem mortos nem vivos,
desejam nada mais enfim
que reviver as eras que se foram.
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abr
15
2009
Graças ao Patch Adams, e por Paulo Neruda, encontrei estes versos:
A Dança
Não te amo como se fosses a rosa de sal, topázio
Ou flechas de cravos que propagam o fogo:
Te amo como se amam certas coisas obscuras,
Secretamente, entre a sombra e a alma.
Te amo como a planta que não floresce e leva
Dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,
E graças a teu amor vive escuro em meu corpo
O apertado aroma que ascendeu da terra.
Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
Te amo assim simplesmente sem problemas nem orgulho:
Assim te amo porque não sei amar de outra maneira,
Senão assim deste modo que não sou nem és,
Tão perto que tua mão sobre o meu peito é minha,
Tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.
Antes de amar-te, amor, nada era meu:
Vacilei pelas ruas e as coisas:
Nada contava nem tinha nome:
O mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
Túneis habitados pela lua,
Hangares cruéis que se dependiam,
Perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
Caído, abandonado, decaído,
Tudo era inalianavelmente alheio,
Tudo era dos outros e de ninguém,
Até que tua beleza e tua pobreza
De dádivas encheram o outono.
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fev
17
2009
Noite passada tive um pesadelo,
onde um lobo e um corvo negro juntos
montavam guarda junto a meu túmulo
posto no alto de uma colina fria.
Pouco além, a oeste da laje branca,
duas árvores altas cresceram entrelaçadas:
a primeira era verdejante e coberta de musgo
e a segunda, cinzenta e estéril.
Fato mais surpreendente no entanto,
a imensidão de pequenas gaiolas penduradas
que continham as mais variadas fadas e sprites.
Umas debatiam-se, outras há muito silenciaram,
sabe-se aguardando um fim ainda vindouro
ou velando uma alma outrora derrotada?
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nov
27
2008
A primeira percepção que tivemos ao abrir a porta,
o cheiro fétido, pútrido, estagnado no ar.
Esteve ali por dias e tomou a casa como se fosse sua,
tingiu os móveis, cobriu o chão e as paredes.
Considerando-se o uso medicinal de substâncias de similar odor,
a lama seria um bálsamo restaurador,
aliviaria os males da pele, da carne, e mesmo da mente,
mas nunca a seria para as efermidades olfativas.
Inversamente ao odor nostálgico da terra molhada,
a lama é repulsiva, impregna as roupas e a pele e,
ao final do dia, quando tudo começa a parecer limpo e liberto,
a alma ainda fede, ao cheiro da lama.
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