out 24 2012

Primeiro Mandamento dos Anjos Guardiões

Sê verdadeiro.
Mesmo que não te traga alegria, que exponha tua carapaça e o teu flanco aos golpes do inimigo.
Que teu sentimento nunca falhe, tua fé não esmoreça e tua luta seja eternamente apoiada nas tuas virtudes.
Faz pelo outro mais do que gostaria de ter para ti mesmo, e dedica-lhe os teus melhores esforços.
Desprende-te ao teu próximo, mesmo que isso te leve a ruína…


set 26 2012

Madrugada

A madrugada é mais difícil,
consome toda minha sanidade
e me torna uma casca vazia
pela manhã.


set 18 2012

Dor em sete versos

Arranquei teu sorriso,
e substitui por lágrimas,
que antes de mim
não existiam.

Tomei teu braço
até a estação mais próxima
e sem voltar-me,
devolvi-a à vida.

E o caminho para casa
voltou a ser sombrio
com’uma noite
sem estrelas.

E mesmo que teu perfume
tenha permanecido,
minha cama agora é
mais fria e vazia.

Como se há anos a dividíssemos,
estranha-me agora tua falta,
substituída p’outra dama,
minha saudade.

Torna a dor mais suportável
por saber que breve
aquele teu sorriso
enfim retornará.

Embora me doa a certeza
que será outro
que não eu
a despertá-lo.


set 10 2012

Obsessão

Adentra os meus lábios e invade meu ser,
rasteja sob a minha pele, deixa marcas.
Toma por empréstimo minhas roupas,
e dá nomes a elas que eu não compreenderia.
Veste minhas camisas e deixa ali seu perfume,
sua presença.

Pouco a pouco a Obsessão se instala,
dividindo comigo travesseiro e cobertor.
Dilui meus pensamentos num turbilhão
roubando-me da cabeceira a consciência.
Por fim, me faz despertar em meio da madrugada
ansiando por ti.


set 4 2012

Versos a um Coveiro

Numerar sepulturas e carneiros,
Reduzir carnes podres a algarismos,
Tal é, sem complicados silogismos,
A aritmética hedionda dos coveiros!

Um, dois, três, quatro, cinco… Esoterismos
Da Morte! E eu vejo, em fúlgidos letreiros,
Na progressão dos números inteiros
A gênese de todos os abismos!

Oh! Pitágoras da última aritmética,
Continua a contar na paz ascética
Dos tábidos carneiros sepulcrais:

Tíbias, cérebros, crânios, rádios e úmeros,
Porque, infinita como os próprios números,
A tua conta não acaba mais!


ago 20 2012

Como não se pode ser…

Perfaço as curvas sinuosas de teus cachos,
percorro os vales estreitos dos teus lábios
e me perco no labirinto do teu encanto
almejando o suave descampado da tua tez.

Sou ludibriado pela sedução do teu olhar,
e levado a cair nos poços de crime e condenação
onde somente meus instintos mais básicos
meio ao caos conseguem sobreviver.

Galgo sozinho o caminho de volta ao topo,
trazendo comigo o arrependimento
de uma noite inteira de vinho, dança e suor.

E quando os instintos esmorecem,
dando lugar a razão e a sinceridade
me descubro no teu labirinto novamente…

– baseado em Refrão De Bolero, Engenheiros Do Hawaii


ago 17 2012

Cavaleiro da Mancha

Prazer, sir Otário, cavaleiro da Mancha a seu dispor,
defendo as causas perdidas e sustento virtudes outrora esquecidas.

Narra-se que em minha mente uma corte feérica se afigura,
rainha, princesas, pajens e toda aquela gente galante.

Frequentadora desta casa, minha dulcíssima protegida,
a quem dedico meu serviço, altruísmo e constante devoção.

Na corte me apresento um cavaleiro de honra inquestionável,
postura rígida, queixo altivo e repleto de orgulhosos feitos.

Pois combato todas as noites os piores temores,
monstros de estatura e poder, impossíveis de se derrotar.

E pode ser que estes gigantes sejam somente moinhos de vento,
pois mascaro a realidade sob a manta da fantasia.

Mas é fato que sustento a honra, amizade e desprendimento
por amor as causas perdidas.

– baseado em Don Quixote, Engenheiros do Hawaii


jul 30 2012

Ela que nunca mais o procurou

Ainda vejo tua face em todos os lugares,
e por mais que procure noutros rostos
outros castanhos que não os teus,
me descubro revendo teu olhar.

Deixo minha mente vagar,
pois o caminho do pesar me atrai
e me engolfa na tua presença
de modo que a realidade não faz.

Certo de que teus pensamentos
se voltam para mim vez ou outra
e desejam ao meu colo retornar.

Te espero hoje, certo de que
se tua partida me agrilhoou,
só tua presença, tua arte
[ me  libertará…

– em nome Daquele que a Morte deixou


jul 20 2012

Hipotermia, estágio 1

Um dos prazeres em se ler ao convés
é sob as páginas ter as mãos enregeladas,
os dedos crispados, ossos cristalizados,
e ser banhado pelo orvalho matinal.

Pois somente o naufragar do táctil
aproxima-nos da experiência da partida,
de tal modo semelhante aos sentidos
ao beijo da morte invernal.


jul 13 2012

Another chance…

She gave me that faithful smile,
a wink and throw me a kiss.

She made me want more,
a reason to die again.