Parentes e Amigos
Os versos não vejo mais,
inspiração que outrora me visitava
esqueceu-se, desapareceu.
E a poesia, tão amada,
me pede o divórcio, desgraçada
e foge com um conto meu.
Junho, Sexta-feira 13
Sou assombrado, é verdade,
por criaturas de minha própria criação;
que pequenas, aparecem sorrindo à janela
ou ligeiras, esgueiram-se ao canto do olhar.
Cogito a tese de ser eu mesmo
o fantasma de todos os meus assombros,
oculto aos olhares, tramando peças,
clamando e amaldiçoando.
Teço melodias para a noite,
arcordes dissoantes e notas ressoantes
libertam-me de minha dor e minha alegria.
Desço as cortinas para a platéia da vida,
envolto nas sombras desapareço
esperando que a maldição se cumpra
[ ou se vá.
Unidade
Quão belas são as asas,
as penas pelo chão espalhadas.
O branco sobre o cinza,
a trama sobre o asfalto.
Gotas viscosas e rubras
que unem toda a obra.
Quão belas e terríveis,
as verdades que dilaceram.
O Baú
Mário Quintana (indicada pela Mari)
Como estranhas lembranças de outras vidas,
Que outros viveram, num estranho mundo,
Quantas coisas perdidas e esquecidas
No teu baú de espantos… Bem no fundo,
Uma boneca toda estraçalhada!
(isto não são brinquedos de menino…
alguma coisa deve estar errada)
mas o teu coração em desatino
te traz de súbito uma idéia louca:
é ela, sim! Só pode ser aquela
a jamais esquecida Bem-Amada
e em vão tentas lembrar o nome dela…
e em vão ela te fita… e a sua boca
tenta sorrir-te mas está quebrada!
A Tua/Minha Cruz
A tua/minha cruz, que há muito pensava ter perdido,
descubro hoje a minha cabeceira, todo este tempo,
permanecera me observando.
E não só ela, pois meus/teus amigos ainda lembram
das coisas que esqueço ou me/te impeça
de acreditar.
Ah, senhorita das gavinhas; tal alcunha,
surgida em outros lábios não tão singelos
resume-te tão completamente.
Cingo-me novamente de tua/minha cruz,
finjo-lhe reverência ao polir-lhe o ventre e o dorso
e alço-lhe os braços ávidos
Soneto Simples aos Amores Perfeitos
Plantou amores-perfeitos em minha janela.
Arroxeados, avermelhados e alaranjados,
florescem vagarosamente ao nascer do sol
inundando a vista em cores quentes.
Plantou amores-perfeitos em minha janela,
e é irônico que seja da casa o único quarto cinzento.
Talvez tenha um desejo, uma simpatia,
de que as cores voltem aos olhos meus.
Plantou amores-perfeitos em minha janela,
para que, como os gregos, abrandem minha ira;
ou curem-me as enxaquecas sazonais.
Plantou amores-perfeitos em minha janela,
sem saber, creio eu, que sua infusão e bálsamo
cicatrizam mesmo as feridas mais profundas
Minha Leanan Sidhe
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Esgueira-se por sobre a janela e entre as cortinas,
invade meu quarto durante as horas noturnas
toca suavemente meu peito com garras nuas
beija-me o pescoço e sorve-me a goles a vida
Sobre as Verdades
Alegria é uma mentira,
instante efêmero de sol
o qual tento convencer-me real,
traindo-me todas as virtudes.
Melancolia, minha única verdade,
aprisiona-me em teu leito,
cobre-me eternamente os lábios
de teu gosto férreo.
Esforça por iludir-me a vida,
tenta-me a traição e ao erro,
quando derrotada, contra a vontade
[ me retém.
Mas ao fim, justiça e verdade
libertar-me-ão do irreal
e cingir-me-ão entre os justos
Lar
Aqui é meu lugar, minha cratera, meu canto
onde escrevo minhas gothiquisses,
palavra que não existe,
termo que tomei a liberdade de criar
para descrever meus pensamento
sobre almas que caminham sós,
almejando destinos impossíveis
alheios a um mundo
ao qual não pertencem