O Grito Silencioso
Algumas vezes surge no meu peito um grito que eu mantenho abafado. É um grasnado gutural, › Continue lendo
Algumas vezes surge no meu peito um grito que eu mantenho abafado. É um grasnado gutural, › Continue lendo
Me acostumei de tal forma aos fantasmas,
que não percebo mais quais são reais
e quais são os de minha própria criação.
…vi seu recado colado junto a geladeira, dizendo que traria pizza e sprite para o jantar.
Finalmente os dias cinzentos. Trazem consigo manchas negras aos meus olhos e fios opacos aos meus cabelos. A maturidade desperta a certeza de que o caminho há muito foi traçado, que a trama há muito foi tecida.
Muitas vezes a vida é limitada e sobram poucos mistérios além da morte. Os dias em que a luz fluiu radiante entre as nuvens ficaram para trás. Sinto o tempo em minhas veias, e já não posso mais correr tão rápido ou me erguer tão alto quanto outrora.
Em meus dias de orgulho, as fiandeiras julgaram-me criminoso e mentiroso, e assim declarado exigiram-me promessas e arrependimento. Promessas que devo manter, e pouco possa fazer em contrário. Apesar disto não haverá redenção ou reabilitação, nenhum caminho novo a seguir.
Como as nornas não percebem o que está errado? Como podem estar cegas à guerra sendo travada, às batalhas que me acompanham diariamente. Fecho meus olhos e imagino as glórias que não voltarão, os últimos raios de luz destacando as formas ao entardecer.
Pegou o carro, o mustang velho de guerra com a lataria carcomida pela ferrugem e uma única calota restante. Acelerou; tanto quanto podia. Poeira e pequenas pedras do asfalto voavam para trás, para o passado. Á frente somente o negro do asfalto, o vermelho do deserto e o horizonte azulado.
Chegaria a tempo? Chegaria inteiro? Chegaria..?
Seu jogo favorito era lutar contra o tempo, contra as expectativas contrárias. Mas perdia. Sabia que lutava, perdia, e gostava. Um clube da luta, que nada, tornou-se membro exclusivo de um clube para os caídos. Mas agora, caindo ao horizonte só havia uma direção a tomar.
Para frente, para o horizonte. Para ela?
Conforme o sol descia ao horizonte e o azul se tornava negro, viu as lágrimas dela pontilhando o céu. O ponteiro do velocímetro continuava no máximo, mas o de combustível reduzia lentamente. Uma a uma apareciam em sua negra tez. Quis tocá-la, mas sua velocidade não era suficiente.
Ele nunca foi o suficiente para ela.
Manteve o pé firme no acelerador quando ela surgiu, de faróis altos e ofuscantes. Vinha do horizonte tão rapidamente que ele mal pôde abrir os braços para recebê-la. Ela o arrematou e jogou ao ar. Parecia voar, finalmente para os braços da Noite.
É junho e faz frio, finalmente o frio. Tive saudades e temi que ele não viesse outra vez, mas cumpriu o prometido.
Ano sim, ano não, me faz tirar do armário o sobretudo, minha segunda pele e sentir novamente prazer em caminhar pela noite.
A lua, meio encoberta pelas nuvens (ou seria névoa?) me observa curiosa, atenta. Sua luz argêntea não chega a tocar-me na escuridão. Pertenço a ela, creio. E ao frio, e me criaram como pai e mãe pouco zelosos, arremessando-me para o seio da vida. Dolorosa e doce vida.
Filha da escuridão também a morte. Minha irmã, minha cara-metade, anseio dos meus dias, fonte do meu desejo. Se esgueira pela noite e foge, correndo por vielas que não aquelas que freqüento. Certo dia ainda a encontro, ou me encontra, não sei ao certo.
Enquanto isso a noite avança vagarosamente, cobrindo de lágrimas brilhantes o negrume da escuridão e trazendo o toque do pai para junto de meu peito. Dedos como adagas, sopro como o hálito de um dragão; sua voz me perturba e atordoa. Pai.
Renasço do frio….
São eras que se passam, milênios enfim,
sucedem-se deixando um legado maior
que os monumentos em ruínas.
As histórias de um povo, contos de outrora,
são passados de pai a filho
como se meras recordações.
Mas são os fantasmas nas sombras,
a ouvir as histórias mais uma vez
que se regozijam pela lembrança.
Nem mortos nem vivos,
desejam nada mais enfim
que reviver as eras que se foram.
Graças ao Patch Adams, e por Paulo Neruda, encontrei estes versos:
Não te amo como se fosses a rosa de sal, topázio
Ou flechas de cravos que propagam o fogo:
Te amo como se amam certas coisas obscuras,
Secretamente, entre a sombra e a alma.
Te amo como a planta que não floresce e leva
Dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,
E graças a teu amor vive escuro em meu corpo
O apertado aroma que ascendeu da terra.
Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
Te amo assim simplesmente sem problemas nem orgulho:
Assim te amo porque não sei amar de outra maneira,
Senão assim deste modo que não sou nem és,
Tão perto que tua mão sobre o meu peito é minha,
Tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.
Antes de amar-te, amor, nada era meu:
Vacilei pelas ruas e as coisas:
Nada contava nem tinha nome:
O mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
Túneis habitados pela lua,
Hangares cruéis que se dependiam,
Perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
Caído, abandonado, decaído,
Tudo era inalianavelmente alheio,
Tudo era dos outros e de ninguém,
Até que tua beleza e tua pobreza
De dádivas encheram o outono.
Deixou a mortalidade no último dia 23 Nicholas Hughes, filho da poetisa a quem muito admiro Sylvia Plath. Sylvia era uma pessoa melancólica e depressiva que partiu deste mundo inalando gás em sua cozinha, quando Nicholas ainda possuía somente um ano de vida. Tal como a mãe, batalhou contra a depressão e apesar disto, optou finalmente por seguir o exemplo de Sylvia, enforcando-se.
Me leva a questionar sobre a hereditariedade de certos aspectos psicológicos, ou a influência que um fato desta magnitude sobre a vida de uma pessoa. Possivelmente, ainda jovem, Nicholas fora severamente questionado sobre a atitude de sua mãe ou mesmo taxado como o “filho de Plath”. Teria isto causado ou potencializado a aparente desordem psicológica?
Ou haverá realmente um fator genético associado e, sendo assim, podemos também nós tansmitir estes aspectos a nossos decendentes?
Só porque eu encontrei esta imagem perdida por aí. Outras em: http://lutasmedievais.com.br/web/galeria.html
