nov 24 2016

Eu tive que deixá-la ir

Eu ainda a via no canto do meu olhar.
Me acompanhava silenciosa, cautelosamente,
me seguindo onde quer que eu fosse.
Me assombrando talvez?

Era feita de sentimentos não resolvidos,
de beijos nunca dados, traição nunca consumada,
repleta de piedade e desejos de bem-estar.
Era como estar de volta.

Quando chegava em casa ela me alcançava na porta.
E enquanto procurava as chaves no bolso,
reinava sobre nós aquele silêncio embaraçoso.
Eu tive que deixá-la ir.

A lâmina tremeu um pouco ao passar pelas costelas,
arranhou a parede ao fundo, manchando-a de carmesim
enquanto ela escorria aos meus pés.
Ainda tão silenciosa.

Arrastei-a para fora e enterrei no pátio em frente,
debaixo de uma árvore que os corvos reclamaram para si.
Revezam-se ao vigiá-la… para que não volte.
Para que encontre seu caminho para casa.


maio 9 2016

E há tantos recortes dessa música…

Is something I cannot say
Is something I can’t explain […]

As palavras vão para o papel, ao invés de se dirigem a você. Preenchem as mesmas páginas amareladas que eu mantenho reservadas, observadas somente pelo tempo que escorre. Elas carregam as complexidades que eu não consigo expor, tão difíceis de representar pelo seu contínuo pulsar e espasmar.

Why I should (not) fall apart? […]

Partes de mim que eu preciso deitar ao chão. Ossos falsos, órgãos falidos que carregam um peso, mas pouco contribuem para a sobrevivência do organismo. A intervenção dói um pouco, mas me torna mais plano, e um pouco mais arguto.

Why I should (not) be at peace?

Pouco a pouco as partes no solo constituem um novo eu, orgânico mas não-vivo. E eu me percebo observando a mim mesmo, de fora da minha vida, de fora dos meus olhos. Silenciosamente a me assombrar…

  • baseado em Untouchable, Part 2 -Anathema

nov 11 2015

Há tantas partes boas nessa música que nem sei o que citar…


fev 17 2015

Silêncio

When the silence beckons
And the day draws to a close
When the light of your life sighs
And love dies in your eyes
Only then will I realize
What you mean to me

– Inner Silence, Anathema


jul 13 2014

Última noite em Paris

Uma última noite antes do amanhecer. Paris é muito mais singela no inverno, mas em Julho o luar me lembra você. Caminho pelas ruas desertas, atravesso sarjetas cobertas de bitucas, tubulações esfumaçadas na noite de verão estrelado.

Não vejo você. Há mais de uma semana que você se foi e isto não me parece mais errado. Ainda uso o mesmo sobretudo e tenho no bolso o recibo da loja de flores. Mas não há mais o perfume das rosas ou o seu. Só a fumaça de uma Paris madrugando.

Apesar disto, ainda sinto a dor. A sua. Antes das luzes do amanhecer o silêncio impera, e nele eu percebo porque a minha não permaneceu. Partiu com você. Como se tivéssemos trocado de malas e fossemos destinados a carregar as mágoas do outro.

Ainda narro meus passos e meus pensamentos como se registrando, num diário, numa fita, uma cena de filme noir de baixa qualidade. Vejo a nós dois como personagens de um drama, de uma trama européia com aqueles finais indefinidos.

Meu vôo é em algumas horas, e eu ainda vago sem rumo. Meus últimos momentos em Paris, sob um céu estrelado e uma lua parcialmente encoberta. Noutra noite de Julho que não a nossa.


dez 22 2011

Palavras não ditas…

In my dreams I can see you
I can tell you how I feel
In my dreams I can hold you
And it feels so real

I still feel the pain
I still feel your love

– trecho de One Last Goodbye, Anathema


jul 12 2011

Um bom dia para Fugir

Ontem foi um bom dia para fugir, ligar o carro e dirigir até a beira-mar. Lá, sentar sobre o capô e vislumbrar os navios deslizando no horizonte enquanto o vento frio nos traria o inverno aos narizes, orelhas e os dedos desprotegidos das mãos.

Ontem, o celular poderia tocar, mas o rugir das ondas contra a baía afastaria todos os outros sons para longe. Seríamos nós, eu e você, o vento a cruzar o cinzento do céu erguendo as pipas do solo, afastando as nuvens e criando a espuma das ondas.

Ontem foi um bom dia para fugir, mas hoje eu me descubro sozinho em frente a um mar revolto que a maré deixou. Levou embora meu vento e trancou suas lembranças fundo em mim.

Se ainda fosse ontem, eu fugiria. Voaria contigo ao sabor do vento, para onde a vida não pudesse nos alcançar.


jul 31 2008

And I still feel the pain…

Relembrando o post em 19.09.2006 sobre o Anathema e a síndrome de Plath.

Eu deveria escrever mais, isso encurtaria o sofrimento. Por outro lado eu já não sinto a dor de outrora. Parece que algo se fechou aqui dentro. Talvez a morte tenha me alcançado enfim, deixado uma marca. O frio que não se vai, o pulso que eu não sinto. Não há sangue ou dores, só a imensa falta de ar…

jul 2 2008

Julho

É julho.

Pode-se notar pelo céu,
nas estrelas mais vivas,
na noite mais fria.
Morto a três dias,
não sinto mais o frio,
não percebo a noite
que não é mais minha.
Somente a lua,
me sorri serena
na noite que é nossa.
Até quando será noite?
Agumas horas a mais
e Agosto novamente.