jun 11 2012

Misericórdia

– Diga-me onde dói – a voz surgiu em meio a escuridão – assim eu posso alcançar a dor.

A voz era bela e uniforme, e fresca como um bálsamo. Trazia de volta as formas borradas dos soldados que passavam correndo frenéticos ao fronte.  A visão era embaçada pela noite, os fogos de guerra, e sobretudo a dor que vinha-lhe do lado.

Há poucos minutos algo atingira-o. Viera do céu, ou talvez do flanco esquerdo, e trespassou placas, cota, carne e costelas. Deixara agora uma mistura barrenta de sangue, vísceras e ferrugem. Há poucos minutos, mais pareciam uma eternidade.

Gritou por ajuda, e depois gemeu. A dor cerrou-lhe os dentes e arrancou-lhe o fôlego… Desmaiou por fim, mas voltou a despertar, chorando, lamentando o fim. O frio instalara-se no lado esquerdo, e seu braço já não movia, paralisado pela falta de sangue e o terror da morte.

Mas a irmã surgiu-lhe da escuridão, e pousando a mão sobre o peito sussurrou: – Seja forte. Diga-me onde dói. Ele ergueu as placas e mostrou a ferida. Estava lacerada e havia farpas de metal cravadas no fundo da carne.

E ela o beijou. Seus lábios pulsavam, vivos e rubros. Sua mão tocou-lhe onde doía e ele estremeceu. O corte aqueceu-se, cauterizando a carne e cuspindo fora os elos destroçados. Mas o calor trazia de volta a dormência da vida, o anseio do retorno.

E ele a sentiu estremecer, seus lábios ressecando e murchando. E conforme sua visão clareava, ela lhe parecia cada vez mais cinzenta, velha, sábia e reconfortante Misericórdia.


jan 11 2012

Pressão

Enquanto a pressão aumenta,
enquanto os vasculares se dilatam,
ardem meus olhos sobre as velas,
lendo as palavras que escrevi
[ e nunca proferi.

Sinto minha mente ferver
em uma caçarola de tormentos
que me desfaz aos poucos
entre leite-de-coco, gengibre
[ e pimenta.

Não importando onde vou,
me persegue e me alcança,
tortura-me novamente os sentidos
devora-me novamente o sono
[ e digere-o.


Versos alimentados por uma receita tailandesa do Toni, uma música do Anathema e meus próprios escritos.


ago 17 2011

Encanto

There’s nothing like a broken childhood
O pai chegava religiosamente ás 3:12 da manhã, considerando a caminhada trôpega desde o bar na esquina que acabara de fechar. Acordava a esposa aos berros quando ela mesma não o esperava de pé. Batia nela. Batia muito.
E depois subia a seu quarto, os passos errantes ressoando pelo assoalho enquanto galgava os degraus. Entrava no quarto puxando da calça o longo cinto de couro. Os gritos se faziam ouvir na madrugada.

There’s nothing like a broken home
Certo dia ela fugiu. Não aguentava mais as surras, pensou, sem considerar o envelope com o carimbo da clínica sobre a mesa da cozinha. Soube quando encontrou as roupas recolhidasdo varal sobre o sofá da sala. Não a culpou.
E então eram somente os dois, as brigas mais frequentes, embora ele agora revidasse. Muitas vezes o pai já não voltava para casa, ou quando voltava, passava as madrugadas em frente a TV, chorando baixinho.

There’s nothing like a tale from your hood
Destacou-se no colégio, ganhou uma bolsa e foi para a universidade. Tornou-se uma lenda na vizinhança e só aparecia nas vezes que o pai tinha crises. Contratou uma babá e esqueceu-se. Mais do que ele merecia, na verdade.
Conheceu-a numa conferência. Ela era ainda estudante e tinha nos olhos aquela admiração ostentosa da juventude. Os cabelos cheiravam a chocolate. Deu-lhe duas filhas e casou-se no dia de São Miguel.

There’s nothing like a record of restriction orders
Levou as meninas embora. Grazi tinha uma mancha negra no braço e ela o culpava. A mais velha já o odiava há anos e a puberdade tornava tudo pior. Sua atenção era voltada agora para celulares e garotos. O pai perdera o posto de herói quando enjoou de chocolate e começou a beber.
Recebeu a intimação em casa, das mãos da oficial de justiça que o recriminava com o olhar. Era de sua antiga vizinhança, ele supunha, mas não queria perguntar. Guardou-a na mesma gaveta onde haviam os papéis não assinados do divórcio, o contrato da babá e o envelope com o exame sua mãe. Pensou em emoldurar.


A idéia veio de uma série de influências externas: seriados (Lie to Me, Big Bang, CSI), filmes (Finding Forrester, entre outros), contos (Neil Gaiman especialmente) e mesmo algumas lembranças pessoais. Atraídas juntas recentemente pela música Spitfall, do Pain of Salvation.